Jeferson De critica falta de diversidade no audiovisual: 'Exceção confirma regra'
Jeferson De: 'Exceção confirma regra sobre diversidade no cinema'

Jeferson De lança 'Narciso' e reflete sobre diversidade no cinema brasileiro

O cineasta paulista Jeferson De, um dos mais prolíficos do Brasil, estreia nesta quinta-feira, 19 de março, o filme Narciso, uma fantasia que coloca um garoto negro no centro da narrativa. Em entrevista exclusiva, o diretor, que acumula seis longas, quatro novelas e três séries na última década, discute a importância do protagonismo afro-brasileiro e os obstáculos estruturais no audiovisual.

Protagonismo negro em múltiplos gêneros

Com uma carreira que abrange terror, comédia, drama histórico e o idealismo da novela Garota do Momento, Jeferson De enfatiza a necessidade de diversificar as histórias com personagens negros. "Há muitos talentos que estão fora das telas, e meu olhar está conectado a eles", afirma. Para ele, colocar atores e profissionais afro-brasileiros em posições de destaque requer decisões anteriores que acessem espaços de poder, uma missão que assume como diretor.

Mercado internacional e abertura para produções nacionais

Narciso tem circulado por festivais internacionais, incluindo Black Film Festivals nos Estados Unidos e Canadá, onde obras anteriores do cineasta já geraram debates. De reconhece um momento de atenção especial ao cinema brasileiro, impulsionado por sucessos como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, além do trabalho de conexão feito por Fernanda Torres e Wagner Moura. "Nós temos a atenção e espero que seja contínua", comenta, otimista com a visibilidade global.

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Crítica à falta de diversidade nas estruturas de poder

Apesar dos avanços na representação na tela, Jeferson De é cético sobre mudanças profundas. "A aparência na frente da tela pode dar a entender que tudo mudou. Mas nós, negros, não participamos da estrutura de poder no interior de uma produção", alerta. Ele classifica sua própria trajetória e a de poucos profissionais como "pura exceção que confirma a regra sobre a ausência de diversidade nas esferas executivas do audiovisual", destacando a necessidade de transformações sistêmicas.

A reinterpretação do mito de Narciso

A ideia de Narciso surgiu de um curta inicial da carreira do diretor, chamado Narciso Rap, desenvolvido anos depois em parceria com a produtora Cristiane Arenas. O foco foi subverter a noção de beleza, apresentando um garoto negro, pobre e órfão que não gosta de sua própria imagem refletida. "As pessoas que o amam mudam sua percepção sobre si e sobre o mundo", explica De, que buscou levar essa reflexão para o cinema, um espaço livre de interferências digitais, permitindo uma nova observação das crianças negras.

Desafios na direção de atores mirins

Tratar temas como racismo com jovens atores exigiu cuidados especiais. Arthur Ferreira, conhecido como Nego Ney na internet, trouxe energia e alegria ao set, mas demandou um ambiente extremamente silencioso para concentração. "Foi o set mais silencioso de que participei até hoje", revela o cineasta, que trabalhou para estabelecer um ritmo que permitisse ao ator construir sua personagem com intensidade, longe dos estereótipos urbanos.

Conexões com a televisão e projetos futuros

A experiência em Garota do Momento permitiu a Jeferson De explorar momentos históricos de esperança no Brasil, como 1958, recriando universos onde negros eram invisibilizados. "Na novela, coube a nós criar esse universo que sabemos que nós, negros, tínhamos vivido de alguma forma", destaca. Agora, ele avança na pós-produção da adaptação de Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus, um projeto que sintetiza seu compromisso com vozes negras, contando com participações de escritoras como Conceição Evaristo.

O diretor adianta que está em negociações para adaptar outras obras de autores negros, reforçando seu papel na ampliação da representatividade. "Essas escritoras representam, para mim, um guia que me conduz pela vida. É um pedido de bênção!", conclui, enfatizando a importância de honrar legados culturais no cinema brasileiro.

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