Dona Beja retorna em releitura da HBO Max que usa o passado para falar do presente
A figura histórica de Ana Jacinta de São José, mais conhecida como Dona Beja, se transformou em um mito ainda durante sua vida no século 19. Ao longo dos anos, sua trajetória inspirou romances, novelas e lendas, justamente por desafiar as normas sociais de sua época. Como mãe solo e mulher independente, ela foi alvo constante de boatos e julgamentos severos.
Uma releitura que provoca reflexões
Quatro décadas após a versão protagonizada por Maitê Proença na Rede Manchete, a personagem retorna em uma releitura da HBO Max. O projeto, que estreia em 2 de fevereiro, não se propõe a ser um remake, mas sim uma nova abordagem que utiliza uma trama de época para discutir conflitos que permanecem extremamente atuais.
Grazi Massafera, que assume o papel da protagonista, destacou em entrevista: "A gente enfia o dedo na ferida da sociedade". A atriz deixou claro que a produção não busca consenso, mas sim provocar debates. "Os mais conservadores vão dizer que é lacração. E isso é bom também. A gente quer isso", afirmou. "Porque quando você mexe, quando você provoca, você obriga a sociedade a se olhar no espelho."
Temas contemporâneos em contexto histórico
Na nova versão, Beja continua sendo retratada como a mulher considerada escandalosa por desafiar convenções morais. No entanto, o foco vai além do romance ou da fama de cortesã. O autor Daniel Berlinsky explicou: "A novela original já mostrava uma mulher à frente do seu tempo. Mas hoje o horizonte dela é muito mais longe. A sociedade mudou menos do que a gente gostaria, mas a nossa consciência sobre essas questões se ampliou."
A proposta da produção é incluir temas como:
- Racismo
- Machismo
- Homofobia
- Transfobia
- Desigualdade social
Sem deslocá-los do contexto histórico. Berlinsky descreve a obra como uma "novela incômoda" que convida o público a se manter em movimento reflexivo. "A única coisa que eu peço é: pense, ache o que você quiser, mas se permita sentir", completou.
Reconstrução histórica e personagens apagados
Outro eixo central da nova versão é a reconstrução histórica. Ao pesquisar a mulher real que inspirou a personagem, Berlinsky descobriu o quanto sua trajetória foi distorcida ao longo do tempo. "O que se sabe de verdade sobre ela cabe em meia página. Ela era uma mulher solteira, com duas filhas, que se sustentava sozinha. Só isso já bastava para virar escândalo", explicou.
A partir desse ponto, a novela amplia o foco e ilumina personagens e experiências que foram apagados pela historiografia oficial. "Descobri que, em 1872, três em cada quatro negros no Brasil já não estavam mais no cativeiro. Ninguém aprende isso na escola", disse o autor. "Existiram negros com posses, com terras, com poder político. Eles sempre estiveram aqui. A gente só não foi autorizado a ver."
Elenco diverso e representatividade
O elenco, composto por nomes como André Luiz Miranda, David Júnior, Deborah Evelyn, Erika Januza e Indira Nascimento, também destacou como a diversidade aparece como tema central na trama e atravessa a trajetória pessoal de cada personagem.
David Júnior, que interpreta Antônio, o grande amor da protagonista, afirmou: "Me sinto muito honrado de poder representar um personagem que tinha posses, que tinha terras, herança, que tinha o poder de existir, de sonhar e não só de sobreviver."
Para Grazi Massafera, Beja surge menos como símbolo erótico e mais como uma figura de empoderamento e independência feminina. "É a primeira vez que eu sinto que estou realmente encarnada em um personagem com toda a minha potência. Ela me ensinou a confiar mais no instinto, na intuição, na coragem de ser quem se é, mesmo quando o mundo inteiro aponta o dedo", revelou.
A atriz finalizou com uma reflexão poderosa: "Essa história não é só sobre o passado. É sobre agora. Sobre todas as mulheres e pessoas que foram julgadas, apagadas, silenciadas e que continuam aqui."