Do 'pirraça' ao 'raparigou': os desafios de traduzir 'O Agente Secreto' para o mundo
Desafios de traduzir 'O Agente Secreto' para o Oscar

Do 'pirraça' ao 'raparigou': os desafios de traduzir 'O Agente Secreto' para o mundo

"Raparigueiro", "pirraça", "mambembe", "dor de corno"... essas são algumas das expressões faladas em "O Agente Secreto", filme que se passa no Recife dos anos 70 e estreou direto no Festival de Cannes, rodando o mundo para concorrer ao Oscar. Nessa trajetória internacional, tradutores encararam um processo extremamente desafiador: como fazer os espectadores estrangeiros entenderem as gírias e cacoetes tão importantes para a apreciação da obra?

Um país pirracento e suas complexidades linguísticas

Logo na cena de abertura, o filme impõe seu primeiro enigma linguístico: "Essa história se passa no Brasil de 1977, uma época cheia de 'pirraça'", diz a nota de rodapé, introduzindo uma das palavras mais complexas para a tradução internacional. Na legenda em inglês, o termo virou mischief (travessura), mas a expressão carrega muito mais do que simples birra ou maldade: representa um estado de espírito político peculiar.

"Tive que encontrar uma palavra que funcionasse nos dois sentidos, dando conta também de uma dimensão de 'trambicagem' e 'corrupção'", explica Evaldo Medeiros, responsável pelas legendas em inglês. Para o diretor Kleber Mendonça Filho, a escolha da palavra foi estratégica, servindo para colocar o espectador estrangeiro, desde o primeiro minuto, em um "ar literário e pernambucano".

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De 'cornos' a 'raparigueiros': o regionalismo em tradução

Outras expressões regionais também exigiram soluções criativas dos tradutores. Quando o locutor da rádio introduz uma música para acalentar a "dorzinha de corno" (a angústia da pessoa traída), a tradução surgiu como you've been made a cuckold (você foi feito de chifrudo). Já o ato de "raparigar" exigiu manobras mais diretas: o "raparigueiro" (clássico cafajeste nordestino) virou whore lover (amante de prostitutas), enquanto o pulo de cerca foi traduzido para fuck around.

Para Evaldo Medeiros, adaptador paraibano radicado na França, a definição do que é local depende sempre do ponto de vista de quem traduz. "Até um 'tá maneiro' pode ser considerado uma expressão regional. O regionalismo é, no fim das contas, uma questão de referencial", pontua o profissional.

Glossário de expressões: do 'bichão' ao 'xispa'

Além das expressões mais conhecidas, o filme apresenta um verdadeiro dicionário de gírias regionais e termos de época que desafiaram os tradutores:

  • bichão - old chap (meu chapa, velho amigo)
  • bichinha - poor thing (pobre criatura)
  • danosse - crissakes [for christ's sake] (pelo amor de cristo)
  • eita - oh my! (minha nossa!)
  • granfina - posh lady (moça elegante)
  • mambembe - it's all a bit improvised (é tudo um pouco improvisado)
  • oxe - what the heck (que é isso?)
  • xispa - outta here! (sai daqui!)

O Brasil que não se traduz: preservando a autenticidade

Alguns termos, porém, foram mantidos propositalmente como "corpos estranhos" no texto estrangeiro. É o caso das palavras "macumba" e "coxinha", além do tratamento "Dona" Sebastiana, que não foi substituído por expressões como "Miss" ou "Mrs". A decisão partiu do próprio diretor Kleber Mendonça Filho, como uma forma de preservar a autenticidade cultural da obra.

O processo de adaptação das legendas para o inglês durou um mês e meio. "Nem sempre existirá a expressão perfeita ou equivalente em outro idioma. O adaptador não precisa traduzir palavra por palavra, mas a intenção da cena", afirma Evaldo Medeiros.

Traduzir para captar: a mediação cultural necessária

Para Muriel Pérez, que adaptou o roteiro para o francês, contextualizar as contradições brasileiras foi mais desafiador do que traduzir termos isolados. "O público estrangeiro pode não ter dimensão do preconceito que existe contra o Nordeste do Brasil, por exemplo", conta a francesa que morou no Recife em 2018.

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Nesse processo de traduzir particularidades locais, Muriel atuou como uma verdadeira mediadora cultural, explicando desde a presença de tubarões no litoral pernambucano até o simbolismo da La Ursa no Carnaval. A versão traduzida foi utilizada nos editais de financiamento na França, e quando tinha dúvidas sobre alguma expressão, a tradutora recorria a dicionários informais ou ligava diretamente para o diretor pernambucano.

"O Agente Secreto" concorre a quatro categorias no Oscar, com a premiação acontecendo em 15 de março, em Los Angeles, representando não apenas o cinema brasileiro, mas também a rica complexidade linguística e cultural do Nordeste do país.