O universo glamouroso e veloz das passarelas de Paris está prestes a ganhar uma nova e profunda camada de significado. Acaba de ser lançado o trailer de "Couture", filme dirigido por Alice Winocour e protagonizado por Angelina Jolie, que promete sacudir a percepção sobre a indústria da moda.
Uma história de vidas entrelaçadas nos bastidores
O longa-metragem se passa no coração da Paris Fashion Week, mas seu foco está longe do brilho superficial dos holofotes. A trama acompanha o cruzamento dos caminhos de três mulheres em um ambiente de pressão extrema e espetáculo constante.
Angelina Jolie vive Maxine, uma cineasta que recebe um diagnóstico de câncer de mama e precisa conciliar seu tratamento com o turbilhão do evento de moda. Ao seu redor, conhecemos Ada, uma jovem modelo imigrante do Sudão do Sul que luta para escapar de um destino predeterminado, e Angèle, uma maquiadora que trabalha em silêncio nos bastidores, observando tudo.
Juntas, essas personagens formam um retrato sensível e poderoso de resistência feminina em um ecossistema que tradicionalmente celebra apenas a imagem final, ignorando as histórias por trás dela.
Moda como metáfora de um mundo hiperconectado
A força narrativa de "Couture" reside em seu contraste agudo. A diretora Alice Winocour parte de uma experiência íntima – a transição entre o ambiente hospitalar e a efervescência de um desfile – para usar a moda como uma metáfora do mundo contemporâneo.
O filme critica um contexto hiperconectado e obcecado por métricas, aparências e performance. Nesta lógica digital, onde tudo é imediato e filtrado, perde-se a essência da alta-costura, que nasceu do tempo dedicado, do gesto manual e da relação profunda entre criador e cliente.
As relações se tornam superficiais, os bastidores ficam em silêncio, enquanto o sistema da moda e sua vitrine global nunca param de girar.
Um filme necessário em um momento de conservadorismo
"Couture" chega em um momento crucial para a indústria. Enquanto o setor ensaia uma volta a códigos estéticos mais conservadores e rígidos, com corpos extremamente magros retornando às passarelas, também vive uma instabilidade nas grandes casas de moda.
A sucessão de diretores criativos, em sua maioria homens, nas grandes maisons reforça um olhar tradicional sobre poder e autoria. O filme de Winocour faz o movimento oposto: desloca o foco do estrelato para as figuras essenciais e frequentemente invisíveis que sustentam todo o sistema.
O título escolhido carrega um duplo sentido fundamental. "Couture" não se refere apenas à alta-costura, mas aos pontos, às suturas e aos remendos – aquilo que mantém o corpo e a alma unidos após um trauma. São essas costuras invisíveis que, muitas vezes, dão sentido real ao que brilha efemeramente na passarela.
Assistir a "Couture" se configura, portanto, quase como um gesto político. O filme amplia o discurso sobre moda em uma época em que o setor começa, finalmente, a se questionar. Em um universo que valoriza tanto a imagem exterior, a obra propõe algo radical: olhar para dentro e reconectar a moda com a vida que pulsa fora do enquadramento perfeito.
A proposta não é demonizar o sistema da moda, mas sim humanizá-lo. Ao revelar as histórias não contadas de mulheres que criam, cuidam, sofrem e persistem, "Couture" lembra a todos que a moda, em sua essência, também é feita de vida real.
O trailer, divulgado em 7 de janeiro de 2026, já está disponível e antecipa um filme que promove uma reflexão urgente e necessária.