Um símbolo da cultura de Pernambuco voltou aos holofotes internacionais graças ao sucesso de um filme. O Cinema São Luiz, localizado no Centro do Recife, foi peça-chave no longa-metragem "O Agente Secreto", que fez história ao ganhar dois prêmios no Globo de Ouro 2026, no domingo (11), em Los Angeles.
Triunfo internacional com raízes pernambucanas
Dirigido pelo recifense Kleber Mendonça Filho e protagonizado por Wagner Moura, o filme já foi assistido por mais de 1 milhão de pessoas no Brasil. Na cerimônia do Globo de Ouro, a produção conquistou as estatuetas de melhor filme em língua não-inglesa e de melhor ator em filme de drama para Wagner Moura.
Com essa vitória, o ator baiano se tornou o primeiro brasileiro a vencer na categoria masculina de atuação no Globo de Ouro. O feito segue o caminho aberto por Fernanda Torres, que em 2025 foi a primeira brasileira a ganhar o prêmio de melhor atriz, por "Ainda estou aqui".
Mais que um cenário, um personagem da trama
A trama de "O Agente Secreto" tem a cidade do Recife como pano de fundo, explorando memórias urbanas e trazendo para as telas pontos históricos. Entre eles, o Cinema São Luiz se destaca não apenas como locação, mas como uma entidade viva na narrativa.
Cenas cruciais do filme ocorrem dentro do cinema, que abriga personagens centrais. É lá que trabalha como projecionista Seu Alexandre (Carlos Francisco), sogro do personagem de Wagner Moura, Marcelo/Armando. Em entrevista ao g1 em 2024, Kleber Mendonça Filho já revelava a importância do local: "Acho que o São Luiz é uma espécie de transporte para a cultura e para o passado da própria cidade... É um navio. É um Transatlântico".
O diretor também destacou a característica fotogênica do São Luiz, considerado uma das salas de cinema mais bonitas do Brasil. O espaço já havia sido mencionado no documentário "Retratos Fantasmas", do mesmo diretor, lançado em 2023 e escolhido para representar o Brasil na disputa pelo Oscar.
Um ícone reaberto e cheio de histórias
Inaugurado em 1952 no térreo do Edifício Duarte Coelho, o Cinema São Luiz passou por um importante capítulo recente: foi reaberto para o público em novembro de 2024, após dois anos fechado para reformas. O prédio é tombado como monumento histórico pelo governo de Pernambuco desde 2008.
Sua arquitetura é um espetáculo à parte. Localizado na Rua Aurora, de frente para o Rio Capibaribe, sua fachada chama a atenção com letreiro branco e letras vermelhas. A entrada é marcada por duas colunas e uma porta de vidro com molduras douradas. Internamente, os visitantes se deparam com:
- Um grande painel de Lula Cardoso Ayres.
- Revestimento luxuoso de mármore branco no chão, colunas e paredes.
- Um tapete vermelho que guia o público até as poltronas.
- Tela emoldurada por vitrais coloridos em formato de jarros de flores, de autoria de Aurora de Lima.
- Luminárias em bronze e paredes com revestimento em jatobá.
- Teto coberto por grandes peças de tapeçaria.
Vida cultural ativa e números expressivos
Muito além de ser uma relíquia arquitetônica, o São Luiz mantém uma programação cultural vibrante. Palco de diversos festivais de cinema, a sala funciona atualmente nos finais de semana, com ingressos a preços acessíveis e uma curadoria que celebra filmes nacionais e internacionais.
Gerido pela gestão estadual, o cinema apresentou um balanço expressivo em 2025:
- 272 sessões de cinema realizadas.
- 112 sessões gratuitas e 160 comerciais.
- 248 filmes exibidos na tela emblemática.
- Desse total, 55 eram longas-metragens brasileiros e 33 longas pernambucanos.
- Público total anual de 33.692 pessoas.
O Cinema São Luiz se consolida, portanto, não apenas como um cenário para grandes produções do cinema, mas como um ativo vivo da cultura pernambucana, conectando passado, presente e futuro através da sétima arte. Sua história se entrelaça com a do Recife, e seu sucesso recente nas telas internacionais é um testemunho do poder cultural que emana de suas poltronas.