De hobby a patrimônio: colecionador guarda 28 mil cartões telefônicos em São Carlos
Colecionador reúne 28 mil cartões de orelhão em São Carlos

Enquanto os orelhões desaparecem das ruas do Brasil, um eletricista de São Carlos, no interior de São Paulo, mantém viva a memória dessa era através de uma coleção impressionante. Nilton Cesar Cavicchioli acumulou nada menos que 28 mil cartões telefônicos ao longo de quase três décadas, transformando um simples hobby em um verdadeiro patrimônio da comunicação brasileira.

O fim de uma era e o nascimento de um acervo

A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) anunciou em janeiro o fim dos telefones públicos, com a remoção de 38 mil aparelhos em todo o território nacional. Esse encerramento de uma época, no entanto, não desanima Nilton. Pelo contrário, ele acredita que a descontinuação dos orelhões tornará os cartões ainda mais raros, despertando o interesse de novas gerações de colecionadores.

As origens de uma paixão

Tudo começou em 1999 de forma bastante despretensiosa. Influenciado por um colega de trabalho que já colecionava cartões, Nilton iniciou sua jornada sem imaginar onde chegaria. "Eu comecei por um colega que já fazia coleção há bastante tempo. Não lembro ao certo qual foi o primeiro cartão", revela o eletricista em entrevista.

O que começou como curiosidade logo se transformou em hábito e, com o passar dos anos, evoluiu para um acervo monumental que hoje ocupa espaço considerável em sua residência.

As preciosidades da coleção

Entre os 28 mil itens guardados com carinho, destaca-se o cartão "Galo da Serra", considerado uma verdadeira raridade no mundo dos colecionadores. Para adquirir essa peça especial, Nilton participou de um leilão em agosto de 2006 e desembolsou cerca de R$ 300, o maior valor já investido em um único cartão.

Mas o verdadeiro "xodó" do acervo é uma coleção temática de cartões com imagens de aviões que, quando reunidos, formam a figura do "Santos Dumont". "Foi a primeira coleção que consegui completar", recorda com evidente orgulho o colecionador.

O investimento emocional e financeiro

Ao longo de mais de vinte anos dedicados à coleção, Nilton estima ter gasto aproximadamente R$ 15 mil para adquirir e manter suas preciosidades. No entanto, como ele mesmo enfatiza, o valor sentimental supera em muito qualquer consideração financeira.

"A reação das pessoas é sempre a mesma: elas não acreditam quando eu digo que são 28 mil cartões", comenta sobre o espanto que sua coleção costuma causar nos visitantes.

Nostalgia materializada

Mais do que simples objetos de coleção, esses cartões representam lembranças concretas de uma época em que o orelhão era o principal meio de comunicação para quem não possuía telefone fixo em casa ou celular.

"Quem é dessa época sente nostalgia. Primeiro vieram as fichas, depois os cartões", reflete Nilton, demonstrando consciência do valor histórico de seu acervo.

Se pudesse escolher um símbolo para representar esse período, ele não ficaria com um cartão específico, mas sim com a série completa "Cidade do Futuro", composta por oito unidades que juntas contam uma história visual do desenvolvimento urbano brasileiro.

Futuro do acervo

Com o fim da produção dos cartões devido à extinção dos orelhões, Nilton acredita que essas peças se tornarão verdadeiras relíquias "extintas". Sua expectativa é que o interesse por elas aumente significativamente, especialmente entre novos entusiastas da coleção.

Olhando para frente, o colecionador já planeja compartilhar seu tesouro com o público. "Eu penso em deixar ela em exposição para que o público conheça uma coleção antiga", afirma, demonstrando desejo de transformar sua paixão pessoal em uma experiência educativa e cultural para a comunidade.

Assim, o que começou como um passatempo entre colegas de trabalho transformou-se em um verdadeiro museu particular, um retrato tangível de um tempo que ficou no passado, mas que continua a despertar curiosidade, memória e emoção em quem tem a oportunidade de conhecer essa impressionante coleção.