Na Amazônia, os rios carregam histórias e cada barco exibe um nome pintado à mão. Em Belém, esse saber tradicional chega às mulheres da Vila da Barca neste sábado (25), durante uma oficina de abertura de letras no Curro Velho. A ação, promovida pelo Instituto Letras que Flutuam, busca aproximar a técnica dos abridores de letras da realidade ribeirinha urbana de uma das maiores comunidades sobre palafitas da América Latina.
Tradição que gera renda
A oficina não apenas ensina a arte da pintura de letras, mas também abre caminhos para a autonomia econômica das participantes. A atividade inclui a criação de um painel coletivo, produzido pelas próprias mulheres e levado de volta à comunidade como um marco da experiência. Mais do que um resultado visual, o trabalho representa o encontro entre técnica, território e possibilidades práticas de aplicação do aprendizado, como no bordado, na costura e em outros suportes.
“A Vila da Barca faz muito sentido dentro do projeto. É a Belém ribeirinha, um território que dialoga diretamente com o que acreditamos e queremos fortalecer”, afirma a diretora do instituto, Fernanda Martins. A comunidade abriga entre 4 e 5 mil moradores e mais de 500 palafitas às margens da Baía do Guajará. A relação com a água organiza o cotidiano e sustenta uma identidade ribeirinha que, embora urbana, mantém vínculos com práticas e saberes amazônicos.
Troca de saberes
A oficina coloca em diálogo o ribeirinho da floresta — de onde vêm os abridores de letras — e o ribeirinho urbano da cidade. “O encontro fortalece esse lugar onde o instituto quer estar, que é o da troca. Não chegamos só com uma técnica, mas com escuta e construção conjunta”, afirma Fernanda. Voltada especialmente para mulheres, a iniciativa também reflete um movimento de ampliação dentro da prática e de estímulo à autonomia econômica.
Programação da oficina
A programação começa com um café da manhã preparado pelas moradoras da comunidade e segue para o Curro Velho, parceiro da ação, onde ocorre a parte formativa. Durante a oficina, o abridor de letras Erbson Lima de Moraes conduz o grupo por um processo que vai da sensibilização com os materiais — tintas, pincéis e suportes — até a prática da pintura. “Parece simples, mas não é. O pincel exige cuidado, técnica, um jeito próprio de usar. Isso faz parte do aprendizado”, explica Erbson.
A maior parte do tempo é dedicada à prática, com as participantes experimentando a construção das letras a partir de uma metodologia desenvolvida junto aos próprios abridores. O processo coletivo se materializa no painel que retorna à Vila da Barca, conectando aprendizado e território. O encerramento acontece na comunidade, com um almoço preparado pela associação local — momento de convivência que prolonga o encontro para além da atividade.
Preservação de um saber ameaçado
Para o instituto, a ação integra um esforço mais amplo de preservação e difusão de um saber que, apesar de profundamente enraizado na cultura amazônica, enfrenta o risco de desaparecer. “A letra de barco é uma identidade forte do Pará e da Amazônia. Sensibilizar as pessoas para a importância dela é fundamental para que esse saber continue existindo”, afirma Fernanda. Ao reunir mulheres, território e tradição, a oficina transforma a técnica em ponto de encontro — e deixa, na comunidade, uma marca concreta dessa travessia.



