Fotógrafos transformam cenas efêmeras do Festival de Curitiba em memória permanente
Fotógrafos eternizam cenas do Festival de Curitiba em exposição

Fotógrafos transformam cenas efêmeras do Festival de Curitiba em memória permanente

Enquanto atores ensaiam suas falas e técnicos ajustam minuciosamente luzes e cenários, há profissionais que observam tudo em silêncio, aguardando o instante exato em que a cena atinge seu ápice emocional. No Festival de Curitiba, esse olhar atento pertence aos fotógrafos, responsáveis por converter apresentações passageiras em registros permanentes que atravessam o tempo. Há mais de uma década, duas mulheres dedicadas acompanham de perto essa missão: a curadora e coordenadora de fotografia Annelize Tozetto, que cobre o evento há impressionantes 16 anos, e a fotógrafa Lina Sumizono, integrante da equipe oficial há 17 edições consecutivas.

O desafio de fotografar o inesperado nos palcos

Diferentemente de outras modalidades de cobertura fotográfica, a captura de espetáculos teatrais exige decisões instantâneas tomadas em frações de segundo, frequentemente sem qualquer ensaio ou preparação prévia. "Raramente existe contato prévio com a obra artística. Na maioria das situações, o encontro decisivo acontece exatamente no momento em que adentramos o teatro e as cortinas se abrem", revela Lina Sumizono com a experiência de quem já testemunhou centenas de apresentações. Para ela, fotografar teatro representa um exercício contínuo de descoberta e sensibilidade: a intenção primordial é preservar em imagem a atmosfera criada pela iluminação, a riqueza da cenografia e a intensidade das emoções, mantendo sempre a integridade da experiência vivida pelo público presente.

Essa imprevisibilidade característica também moldou profundamente a trajetória profissional de Annelize Tozetto. Ela ingressou na equipe do festival em 2010, logo após concluir sua graduação em Jornalismo, e afirma categoricamente que o evento redefiniu completamente seu caminho profissional. "Todo o conhecimento que adquiri sobre luz e fotografia de espetáculo foi conquistado através do festival. Essa experiência transformou radicalmente minha vida e minha carreira", declara a coordenadora, destacando o caráter formativo da atividade.

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Rotina intensa e trabalho coletivo nos bastidores

Durante as duas semanas intensas de programação do festival, a equipe de fotografia, atualmente composta por dez profissionais especializados, trabalha em ritmo acelerado e quase ininterrupto. As apresentações costumam ocorrer predominantemente no período noturno, porém as imagens precisam estar disponíveis para a imprensa e para o público interessado já na manhã seguinte. Segundo Annelize Tozetto, a edição cuidadosa das fotografias acontece frequentemente durante a madrugada, exigindo dedicação extrema. "É muito puxado, muito corrido, mas nós gostamos profundamente de estar ali presentes. Representa uma imersão artística muito profunda", compartilha a coordenadora.

O trabalho fotográfico também depende fundamentalmente da sintonia harmoniosa entre todos os integrantes da equipe. Muitos profissionais atuam juntos há vários anos, o que facilita significativamente a construção de uma narrativa visual coerente e consistente sobre o festival como um todo. "Aprendemos constantemente entre nós e trocamos intensamente sobre a melhor forma de contar visualmente as histórias que presenciamos", complementa Annelize, enfatizando o aspecto colaborativo.

Imagens que atravessam o tempo em exposição

O impacto cultural desse trabalho minucioso pode ser apreciado agora fora dos palcos, em uma exposição especial. Aberta na quinta-feira, 26 de março, a mostra "Entreolhares: narrativas visuais do Festival de Curitiba" reúne mais de 80 imagens selecionadas produzidas nas últimas quatro edições do evento e está em cartaz no Centro Cultural da PUC-PR. Com curadoria assinada por Annelize Tozetto, a exposição tem como tema central o conceito do "encontro" — entre artistas, público e profissionais dos bastidores.

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Este recorte temporal também marca simbolicamente o retorno do festival ao formato presencial, após a pausa forçada provocada pela pandemia de Covid-19. "Desejávamos enfatizar fortemente essa dimensão do encontro: do público com a peça teatral, do fotógrafo com o espetáculo e das pessoas entre si", explica detalhadamente a curadora. Apenas na edição de 2023, a equipe oficial produziu impressionantes mais de 16 mil imagens, um volume monumental que exigiu um processo meticuloso de triagem e seleção para chegar às fotografias finais apresentadas.

Registrar o que desaparece: a essência da fotografia teatral

Fotografar teatro é, em sua essência mais pura, documentar algo que nunca se repetirá exatamente igual. Cada sessão é única e irreproduzível, e frequentemente o clique decisivo acontece por acaso feliz, como em uma das imagens favoritas de Annelize, capturada durante a peça "Ana Lívia", em 2024, quando um efeito especial de água no palco coincidiu perfeitamente com uma mudança inesperada de iluminação.

Esse caráter irrepetível é também o que mantém Lina Sumizono motivada e apaixonada após 17 anos de cobertura ininterrupta. Ao longo das diversas edições, ela acompanhou de perto montagens que a marcaram profundamente, como apresentações do consagrado humorista Gregório Duvivier e o impactante espetáculo "Monga", que retrata os bastidores fascinantes do universo circense. "Cada imagem carrega inevitavelmente minha forma pessoal de ver e interpretar o espetáculo", reflete a fotógrafa. "É um olhar singular que atravessa a cena e a transforma em narrativa visual perene".

Construindo a memória coletiva do festival

Mais do que meros registros técnicos, as fotografias acabam formando gradualmente um arquivo histórico valioso do próprio festival. Elas documentam meticulosamente cenários inovadores, artistas consagrados e emergentes, tendências estéticas em evolução e até mudanças perceptíveis no público ao longo dos anos. Para Annelize Tozetto, esse acervo visual demonstra claramente que o festival é resultado de um trabalho coletivo e colaborativo. "O resultado final de uma fotografia envolve o trabalho criativo de muitas pessoas — do ator em cena, do iluminador, do cenógrafo. A fotografia no teatro também é, fundamentalmente, uma construção conjunta", analisa a curadora.

A exposição "Entreolhares: narrativas visuais do Festival de Curitiba" permanecerá aberta ao público até 26 de maio, com entrada inteiramente gratuita, oferecendo a todos a oportunidade única de observar o festival sob uma perspectiva diferenciada: a perspectiva daqueles que estão atrás das lentes profissionais e transformam o efêmero em memória duradoura para as gerações futuras.