Figurino Assume Papel Narrativo em Performance que Ocupa Ateliê de Moda
Em uma fusão inovadora entre moda e dança, o espetáculo Hiperfabulária Tropical redefine o papel do figurino, transformando-o de elemento decorativo para condutor central da narrativa. A performance solo da artista Carmen Jorge integra a Mostra Fringe do 34º Festival de Curitiba com uma proposta ousada: ocupar um ateliê de moda como palco, espaço tradicionalmente dedicado à criação de roupas.
Ambiente de Criação Transformado em Cenário Vivo
As apresentações acontecem nos dias 7 e 8 de abril no Ateliê Luan Valloto, onde o próprio figurinista abre seu estúdio ao público. Esta escolha estratégica converte o ambiente de trabalho em extensão da dramaturgia, criando uma simbiose entre espaço cênico e processo criativo. A performance não chega ao Fringe como estreia absoluta - foi apresentada anteriormente na Casa Hoffmann, centro de referência em dança contemporânea - mas ganha nova dimensão neste contexto inusitado.
Corpocaos: Corpo, Palavra e Política em Tensão
A obra desenvolve o conceito de "corpocaos", investigando as relações entre corpo, palavra e política em cena. Inspirada no universo experimental do multiartista José Agrippino de Paula e da bailarina Maria Esther Stockler, a montagem parte do romance PanAmérica (1967), marco do experimentalismo brasileiro associado à Tropicália, para questionar mitos culturais e estruturas de poder dominantes.
Figurino como Dispositivo de Linguagem e Simbolismo
Neste universo performático, a roupa não apenas acompanha o corpo, mas participa ativamente dele. O figurino, assinado pelo estilista Luan Valloto, foi desenvolvido em diálogo direto com a performer. "O figurino é um instrumento de semiótica e simbolismo. É muito difícil ele ser neutro, e isso é algo positivo, porque ele comunica junto com a personagem", afirma Valloto.
O processo criativo iniciou-se a partir da autoimagem descrita por Carmen Jorge: uma figura entre boneca plástica e androide tropicalista. A partir dessa referência, o estilista optou por:
- Materiais plásticos de alta resistência
- Transparências que revelam o corpo e tatuagens
- Formas tridimensionais que ressaltam a presença física
- Silhuetas que dialogam com tendências contemporâneas
Cruzamento entre Tropicalismo e Futurismo
A construção visual da performance estabelece um diálogo entre referências da Tropicália, estética futurista e cultura pop. Valloto explica que as escolhas criam um figurino que simultaneamente remete ao passado e aponta para o futuro: "A questão do tropicalismo e da cultura pop fazia muito sentido para a gente, mas em uma vertente mais futurista, quase robótica".
As peças foram especialmente projetadas para acompanhar a técnica de popping utilizada por Carmen Jorge em cena - contrações musculares rápidas que exigem roupas funcionais e resistentes. As transparências e sobreposições transformam a roupa em extensão da própria pele, revelando o corpo em movimento.
Ateliê como Cenário e Gestor Político
A decisão de apresentar o espetáculo no ateliê surgiu após uma visita da artista ao espaço. Ao observar a vitrine e a disposição dos elementos, Carmen percebeu que o local traduzia visualmente o universo da performance. "Ela olhou o espaço e falou: 'é isso que eu queria de fundo'. A partir daí começamos a pensar como fazer a apresentação ali", relembra Valloto.
Acostumado a receber desfiles, o estilista afirma que esta será a primeira vez que o estúdio abrigará uma performance de dança e teatro: "Já ocupamos o ateliê com moda, mas uma apresentação cênica é a primeira vez. Estamos bem contentes com isso".
Trajetória de Pesquisa e Experimentação
Fundadora da plataforma PIP Pesquisa em Dança, Carmen Jorge desenvolve desde 2002 uma investigação que cruza corpo, política e experimentação. Ao longo de sua carreira, apresentou trabalhos no Brasil e no exterior, atuando como coreógrafa, curadora e preparadora corporal em produções teatrais.
Em Hiperfabulária Tropical, essa trajetória se materializa em um corpo que oscila entre colapso e reinvenção. A dramaturgia incorpora fragmentos de texto, sons e movimentos abruptos, criando uma cena instável que reflete o caos contemporâneo. O trabalho também dialoga com o pensamento do líder indígena Ailton Krenak, evocando reflexões sobre vida, natureza e crise civilizatória.
Experimento que Aproxima Linguagens e Públicos
Para Luan Valloto, a apresentação no ateliê representa uma possibilidade de aproximar públicos distintos: "O ateliê e o figurino têm plasticidades, cores e transparências muito semelhantes. Vai ser uma oportunidade diferente para quem gosta de dança, teatro e moda acompanhar tudo isso junto".
A experiência aponta para um futuro em que espaços de criação de moda possam também funcionar como centros de experimentação artística: "Quero que o ateliê receba mais apresentações. Moda, performance e espetáculo têm tudo a ver entre si", afirma o estilista.
Informações Práticas
Hiperfabulária Tropical - Mostra Fringe – 34º Festival de Curitiba
- Data: 7 de abril (gratuito) e 8 de abril (a partir de R$ 15)
- Horário: 17 horas
- Local: Ateliê Luan Valloto - Rua Comendador Macedo, 360, Centro
- Classificação indicativa: 16 anos
- Duração: 35 minutos
- Lotação: 30 lugares
O 34º Festival de Curitiba acontece de 30 de março até 12 de abril de 2026, com ingressos variando de R$00 até R$85 (mais taxas administrativas). Os ingressos estão disponíveis no site oficial do festival e na bilheteria física exclusiva no Shopping Mueller.



