Iniciativa Mulheres e Territórios do Insper valoriza saberes populares na transformação urbana
A Iniciativa Mulheres e Territórios do Centro de Estudos das Cidades, vinculada ao Laboratório Arq.Futuro do Insper, tem como objetivo principal repensar as cidades brasileiras a partir da união entre saberes populares e acadêmicos. Com foco especial nas experiências femininas em territórios populares, como periferias e favelas, o projeto busca valorizar o papel central da população na compreensão e transformação urbana, combatendo desigualdades estruturais e promovendo direitos fundamentais.
O papel dos cidadãos na construção das cidades
Cidades são processos dinâmicos e vivos, resultados de perspectivas políticas, teóricas e metodológicas que estão em constante disputa tanto na arena pública quanto nos espaços acadêmicos. Os cidadãos têm um papel fundamental na compreensão das dinâmicas, sentidos e mudanças urbanas em curso. No entanto, historicamente, a relação da academia com quem produz a cidade no cotidiano nem sempre foi horizontal ou gerou soluções que dialogassem com demandas concretas.
Essa desconexão é especialmente evidente no caso de grupos que sofrem com desigualdades de gênero, raça e território, materializadas nos desenhos das urbes. Práticas sociais, depoimentos, documentos e artefatos elaborados na experiência urbana têm relevância significativa para teorias, dados e evidências que conformam o saber técnico-científico, socialmente legitimado.
Amplificação de vozes historicamente sub-representadas
A Iniciativa Mulheres e Territórios surgiu há seis anos com perguntas fundamentais: Quais as possibilidades de grupos historicamente sub-representados no campo acadêmico e na gestão pública serem reconhecidos como produtores de conhecimento? Qual o lugar de saberes, fazeres, práxis e políticas elaboradas por mulheres, negros, indígenas, moradores de periferias e favelas no pensar a cidade? Como amplificar esse poder criativo contra-hegemônico e influir em debates para além do campo político?
O projeto nasceu durante a pandemia de covid-19, a partir de um grupo formado por mulheres líderes comunitárias em São Paulo e no Rio de Janeiro. Inicialmente, as ações se concentraram no combate à insegurança sanitária e alimentar decorrente do surto planetário do coronavírus, através do diálogo com empresas e entidades do terceiro setor.
Modelo inovador de resposta à crise humanitária
Mais do que campanhas educativas e distribuição de cestas básicas, botijões de gás e máscaras, a Iniciativa buscou refletir sobre como os repertórios acumulados sobre os territórios e suas populações faziam diferença para que os recursos alcançassem quem estava sendo negligenciado por outras ações. Dessa reflexão, surgiu um modelo de resposta à crise humanitária baseado em:
- Mapeamento local de demandas
- Autonomia das lideranças na tomada de decisões
- Articulação de redes comunitárias
- Transparência e desburocratização na gestão de recursos
Consolidação e expansão do trabalho acadêmico
Com a consolidação do trabalho no Insper, a Iniciativa já realizou diversas pesquisas e atividades, incluindo:
- Estudos sobre mulheres empreendedoras e conforto térmico em favelas
- Eventos relativos à justiça climática e direitos sexuais e reprodutivos
- Atividades formativas sobre produção e uso de dados em periferias
- Participação em disciplinas da graduação e pós-graduação
- Transformação de territórios em espaços de aprendizagem para estudantes de variados perfis
O aprofundamento das relações com a academia não ocorre sem conflitos ou mediações, mas tem sido uma oportunidade valiosa de interagir com especialistas diversos, apropriar-se de códigos e saberes que contribuem para o fazer local, e aplicar nos territórios resultados gerados nessa interação.
Ecologia de saberes e protagonismo popular
A Iniciativa Mulheres e Territórios se aproxima de outras ações realizadas no ensino superior que promovem a ecologia de saberes. Parte do reconhecimento de que lideranças populares, com suas formações políticas, acadêmicas e/ou territoriais, são protagonistas de soluções, inovações e formas de interpretar as cidades que participam das teorias urbanas, demonstrando-se fundamentais para a transformação socioespacial.
Coordenada por Eliana Sousa Silva e Ana Leticia Salla, com participações de Andrelissa Ruiz, Carmen Silva, Cleide Alves, Érica Peçanha, Evaniza Rodrigues, Fernanda Viana, Heloisa Simão, Marília de Santis e Paulina Achurra, a Iniciativa continua mobilizando-se para amplificar vozes historicamente silenciadas e influenciar debates urbanísticos com perspectivas plurais e inclusivas.



