Biografia revela pacto com diabo e fugas de Guimarães Rosa
Biografia revela pacto com diabo e fugas de Rosa

Guimarães Rosa: uma vida marcada por mistério e sobrevivência

Em uma madrugada de 1941, Guimarães Rosa acordou com vontade de fumar. Como não havia cigarro em casa, o cônsul-adjunto do Brasil em Hamburgo vestiu um sobretudo por cima do pijama e saiu para comprar um maço. Em um café da vizinhança, ouviu uma sirene e correu para o abrigo mais próximo. Pela manhã, ao voltar para casa, o prédio onde morava havia sido reduzido a escombros. "Dizem que o cigarro mata. Mas aquele salvou minha vida", ironizou. Ainda na Alemanha, outro susto: um ataque aéreo destruiu parcialmente o consulado onde Rosa trabalhava. Com risco iminente de desabamento, as autoridades alemãs proibiram a entrada de funcionários. Rosa, porém, burlou a segurança, entrou no imóvel e retirou do cofre uma papelada confidencial. Ao sair, o restante do prédio veio abaixo. "Deus me reservava uma missão. Por isso, salvou-me da morte duas vezes", segredou Rosa a Vilma, sua primogênita, que registrou a confidência no livro de memórias Relembramentos (1983).

"Duas vezes?", espanta-se o jornalista Leonêncio Nossa, autor do recém-lançado João Guimarães Rosa – Biografia (Nova Fronteira e Topbooks). "Rosa escapou da morte incontáveis vezes. Uma delas foi em 1958 quando sobreviveu a um infarto, aos 50 anos". A biografia, de 736 páginas, é o primeiro livro do gênero dedicado ao autor de Grande Sertão: Veredas (1956). Em 2007, Alaor Barbosa publicou Sinfonia de Minas Gerais – A Vida e a Literatura de Guimarães Rosa, mas a obra foi recolhida por decisão judicial após a família alegar falta de consulta.

Estrutura da biografia e revelações

Leonêncio Nossa dividiu a obra em três partes: o médico (1908-1938), o diplomata rebelde (1938-1951) e o soldado (1951-1967). A sugestão veio do próprio Rosa em entrevista ao jornalista Günter Lorenz em 1965: "Como médico, conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da proximidade da morte". A biografia inclui linha do tempo e árvore genealógica.

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No prólogo, o biógrafo confirma a história sobrenatural de que uma cigana teria profetizado a morte de Rosa. Supersticioso, o escritor adiou por quatro anos, três meses e oito dias sua entrada na Academia Brasileira de Letras (ABL). Eleito em 8 de agosto de 1963, só vestiu o fardão em 16 de novembro de 1967. Morreu três dias depois, em 19 de novembro. Na semana que antecedeu a posse, Rosa pediu à filha Vilma que, caso a premonição se cumprisse, enviasse os originais de Estas Estórias e Ave, Palavra para o editor José Olympio. Também combinou um sinal com Austregésilo de Athayde, presidente da ABL: se levasse a mão à testa durante o discurso, a sessão deveria ser suspensa. "Você sabe, talvez seja bobagem, mas o mau pressentimento não me abandona", comentou.

"Rosa escolheu três acadêmicos para entrar com ele no salão principal. Nenhum tinha afinidade literária com o imortal. O critério de seleção? Os três eram médicos", relata Nossa. No dia da posse, Rosa relutou em sair de casa. "Não vou", desabafou ao amigo Geraldo França de Lima. "Vou morrer". No trajeto até a ABL, rezava o terço que a caçula deu de presente. Quando o carro chegou ao número 203 da Presidente Wilson, no Centro do Rio, pediu ao motorista para dar voltas no quarteirão. "Para você, não tenho segredos", disse a França de Lima. "Não chego a dezembro".

Pacto com o diabo

Em entrevista a Nossa, a arquiteta Nora Rónai, viúva do tradutor Paulo Rónai e amiga do casal Rosa e Aracy, relata que, dias antes da posse, o escritor acreditava ter feito um pacto com o diabo. O próprio Rosa, em entrevista ao jornalista Ascendino Leite em 1946, admitiu ter feito "pactos provisórios com o diabo". Gustavo de Castro, doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP e autor de outra biografia de Rosa, explica: "É quando você faz um pacto com o demo para conseguir algo em troca. Se você consegue o que quer em três meses, paga um boi, uma cabra ou um bezerro. Mas, se morre neste período, sua alma passa a ser dele".

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Castro destaca a polimatia de Rosa: "Era uma espécie de Leonardo da Vinci mineiro". Um dos assuntos que mais interessavam ao biografado era o diabo. Em sua biblioteca, havia livros e mais livros sobre o cramulhão. "O pacto de Riobaldo com o diabo em Grande Sertão: Veredas é de uma riqueza de detalhes impressionante. Rosa era um profundo conhecedor do tema", explica.

Outra curiosidade: Grande Sertão: Veredas seria inicialmente uma das novelas de Corpo de Baile, mas o título provisório O Diabo na Rua no Meio do Redemoinho cresceu tanto que virou romance. Ambos foram publicados em 1956. Haroldo de Campos contou que, em 1966, Rosa confidenciou: "Quando me vem o texto, fico nu, rolo no chão, luto com o demo de madrugada no meu escritório e depois, naquele impulso, escrevo". "Quando ele falava do demo, não era uma metáfora. Era uma coisa presencial, encarnada", espantou-se Campos.

Expedição pelo sertão

Em 1952, Rosa participou de uma expedição de nove dias pelo sertão mineiro, montado em uma mula, percorrendo 240 quilômetros de Três Marias a Araçaí. Fez anotações em seis cadernetas. A pesquisadora Mônica Meyer, autora de Ser-Tão Natureza, afirma: "Não se pode afirmar que a ideia de escrever Grande Sertão: Veredas tenha surgido nessa viagem, mas há passagens do livro que reproduzem trechos da viagem: o lugar onde Riobaldo conhece Otacília, por exemplo, é inspirado na Fazenda Santa Catarina e na Vereda São José".

Toda quarta, das 18h às 20h, cerca de 60 pessoas se conectam para ler a obra de Rosa na Oficina de Leitura João Guimarães Rosa, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. Desde 2020, os encontros são virtuais. "Todos os livros do autor já foram lidos, mas os que atraem maior interesse são Sagarana, Corpo de Baile e Grande Sertão: Veredas", explica a coordenadora Rosa Haruco Tane.

Vida pessoal e carreira diplomática

João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, a 115 km de Belo Horizonte, em 27 de junho de 1908. A casa onde viveu até os nove anos virou museu em 1974, com objetos como a máquina de escrever, o espadim da ABL e a coleção de gravatas-borboletas. Cerca de 25 mil pessoas visitam o local por ano, 97% turistas. Em 1925, ingressou na Faculdade de Medicina de Minas Gerais (atual UFMG). Formado, transformou a casa em Itaguara em clínica, atendendo pacientes a cavalo à noite. Como pagamento, recebia bolos, aves e doces. "Pela minha profunda tristeza de não poder salvar alguns doentes, abandonei a medicina", confessou.

Como diplomata, serviu em Hamburgo (1938-1942), Bogotá (1942-1944) e Paris (1948-1951). Em Hamburgo, conheceu e se apaixonou por Aracy, secretária do consulado. Juntos, ajudaram judeus perseguidos pelo nazismo a fugir para o Brasil. "Mais de uma vez, expressou mal-estar com a discriminação aos judeus", afirma Georg Otte, vice-diretor da Faculdade de Letras da UFMG, referindo-se ao inédito Diário de Hamburgo. "Não há menção sobre a ajuda aos judeus para escapar da perseguição nazista. Provavelmente, não queria que a ação fosse descoberta". Vilma relata que Rosa desenhou uma caricatura de Hitler enforcado, mas o desenho desapareceu, possivelmente surrupiado por um funcionário-espião.

No Rio de Janeiro, Rosa conheceu Heloísa Vilhena de Araújo, autora de Guimarães Rosa: Diplomata (1987). Certa vez, ele perguntou se ela rezava. "Respondi que não. Ele retrucou: 'Eu rezo sempre. Tenho medo de cair na loucura'", conta Heloísa, hoje com 86 anos. "Em Grande Sertão: Veredas, Riobaldo também quer rezar o tempo todo. A pergunta dele foi uma revelação". Em 1940, Rosa escreveu uma carta ao cônsul em Frankfurt com todas as 431 palavras iniciadas pela letra C. "Ele tinha uma obsessão quase enciclopédica pela palavra escrita", afirma Castro.

Em 1985, durante as gravações da minissérie Grande Sertão: Veredas, Bruna Lombardi, intérprete de Diadorim, também teve medo de enlouquecer e começou a escrever um diário. Publicado em 1986, Diário do Grande Sertão será relançado, revisto e ampliado, pela Editora Autêntica ainda este ano. "Escrevi o diário in loco, direto das gravações. Foi uma minissérie nômade. O sertão era a nossa locação. Às vezes, escrevia no lombo de um cavalo. Outras, no meio do mato. Muitas vezes, nem eu mesma entendia o que tinha escrito", relembra a atriz.