Uma descoberta científica de grande relevância foi confirmada no Parque da Gruta Santa Luzia, localizado no município de Mauá, na Grande São Paulo. Pesquisadores identificaram e catalogaram uma nova espécie de caranguejo-de-rio, que vive exclusivamente naquele ambiente. O trabalho para comprovar a singularidade do animal, batizado de Aegla tamanduateí, levou mais de uma década de estudos meticulosos.
Da observação à confirmação científica
A primeira aparição do pequeno crustáceo ocorreu em julho de 2012, durante uma expedição de mapeamento na caverna. O espeleólogo Ericson Cernawsky, acompanhado de um amigo, notou um indivíduo que parecia diferente do que já conhecia. "Junto com um amigo, Carlos Eduardo, vim fazer um novo mapa da gruta quando vimos um indivíduo que a gente achou diferente", relembra Cernawsky. Imediatamente, ele entrou em contato com o professor Sérgio Bueno, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP).
"A gente não imaginava encontrar nesse tipo de caverna um bicho como um Aegla", confessou o espeleólogo. A surpresa inicial deu início a um longo processo de investigação, que culminou na publicação dos resultados em uma revista científica internacional de referência.
Análises morfológicas e genéticas
Para afirmar com certeza que se tratava de uma espécie nunca antes descrita, a equipe do professor Sérgio Bueno realizou uma série de exames detalhados. "Uma primeira forma de comparação é a análise morfológica. A gente estuda a morfologia externa do bicho e a compara com a morfologia externa de outras espécies conhecidas", explicou o pesquisador.
O passo seguinte foi ainda mais preciso: a análise genética. "Cada bicho tem a sua identidade genética", afirmou Bueno. Os cientistas coletaram uma amostra de tecido, geralmente muscular, do animal para extrair seu DNA e compará-lo com o de outras espécies do gênero Aegla. Foi essa combinação de estudos que permitiu a confirmação: o caranguejo é único no planeta e só existe naquele local específico.
Um santuário ecológico e religioso
O Parque da Gruta Santa Luzia se mostrou um refúgio ideal para a sobrevivência da nova espécie. O professor Sérgio Bueno destaca que o local é uma nascente protegida do Rio Tamanduateí. "Mais que isso: essas nascentes estão num lugar considerado protegido, preservado. Então, esse ambiente é saudável de manter populações biológicas", disse.
Além de seu valor ecológico, a gruta carrega uma rica história cultural e religiosa. O ambientalista Rogério Santana conta que o local é ponto de peregrinação para devotos de Santa Luzia, que buscam cura ou bençãos para problemas de visão. "Milhares de pessoas que têm problemas com a sua visão ou querem fazer um pedido para a santa frequentam mensalmente a gruta", afirmou.
A tradição, segundo ele, remonta à década de 1950, quando trabalhadores de pedreiras da região, frequentemente atingidos por lascas de pedra, iam até a fonte d'água da gruta para lavar os olhos. Essa prática popular consolidou a associação do local com Santa Luzia, a padroeira da visão.
A descoberta do Aegla tamanduateí reforça a importância da preservação de áreas naturais urbanas, como o Parque da Gruta Santa Luzia, que abrigam biodiversidade única e insubstituível, coexistindo harmoniosamente com as tradições e a história da comunidade local.