Filhote de macaco-prego com leucismo é flagrado em parque cearense em registro inédito
Um filhote de macaco-prego de apenas três meses, apelidado de "fantasma" por pesquisadores, foi registrado com leucismo no Parque Nacional de Ubajara, localizado na região da Serra da Ibiapaba, no estado do Ceará. O caso é considerado inédito para a ciência, pois essa mutação genética nunca havia sido documentada nesta espécie de primata.
Descoberta acidental durante pesquisa de campo
O responsável pelo registro histórico foi o primatólogo Tiago Falótico, presidente da Neoprego, uma associação sem fins lucrativos criada por biólogos para fortalecer pesquisas de campo de longa duração com primatas no Brasil. Durante a instalação de gravadores de som no parque, o pesquisador fez o flagrante do filhote com coloração diferenciada.
"Foi uma grande surpresa! Em 20 anos trabalhando com macacos-prego, nunca tinha visto um indivíduo com variação de pelagem assim", relatou Tiago Falótico, que prontamente começou a filmar para documentar a condição rara, mesmo o filhote não fazendo parte do grupo que ele estava estudando inicialmente.
Diferenças entre leucismo e albinismo
De acordo com o pesquisador, a única condição similar já registrada na espécie foi o albinismo, observado em apenas dois indivíduos criados em cativeiro. É importante destacar as diferenças fundamentais entre essas duas mutações genéticas:
- Albinismo: Caracteriza-se pela ausência total de melanina no corpo, afetando pele, pelos e também os olhos, que podem apresentar coloração muito clara ou avermelhada. Esta condição costuma estar associada a alterações na visão.
- Leucismo: Envolve redução ou ausência parcial de melanina, afetando principalmente a pelagem. Diferentemente do albinismo, a pele e os olhos geralmente mantêm a coloração normal. A condição pode ser parcial, atingindo apenas algumas partes do corpo, ou total.
O "fantasma" de Ubajara: características únicas
No caso específico do indivíduo observado no Ceará, o leucismo é parcial: braços, pernas e cauda apresentam pelagem clara, enquanto a cabeça mantém o padrão típico da espécie. Os motivos para a ausência de coloração ainda estão sendo investigados pelos pesquisadores.
"A causa pode ser uma mutação genética que impede a formação ou deposição de melanina nos pelos. Uma deficiência alimentar também poderia causar uma falta de cor... Normalmente é uma mutação aleatória e, como a mãe e os outros machos do grupo não apresentam essa característica, parece ser uma mutação nova", explicou o primatólogo Tiago Falótico.
Implicações científicas e perspectivas futuras
Entretanto, o pesquisador afirma que não se pode descartar completamente a possibilidade de que o gene do leucismo circule na população local, o que poderia ocasionar o nascimento de outros indivíduos com a mesma alteração no futuro. Estudos genéticos sobre o grupo estão sendo realizados para esclarecer essa questão fundamental.
Apesar da coloração diferenciada, o filhote aparenta ser saudável. Os pesquisadores não observaram alterações significativas no comportamento, no desenvolvimento ou na interação dele com outros indivíduos do bando. Em relação às chances de sobrevivência do macaco, Falótico pondera que, em teoria, animais com pelagem mais clara podem se tornar mais visíveis para predadores ou ter menor proteção contra a radiação solar.
No entanto, não é possível afirmar categoricamente se esses fatores terão um impacto real na vida do filhote. O achado científico foi documentado em um artigo publicado na revista científica Primates, representando uma contribuição significativa para o conhecimento sobre a biodiversidade brasileira e as variações genéticas em primatas neotropicais.



