Macaco brinca de faz de conta: estudo pioneiro revela imaginação em bonobos
Perceber quando uma criança começa a brincar de faz-de-conta costuma ser um marco do desenvolvimento, com transformações mágicas do quarto em castelo e conversas com bonecos invisíveis a partir dos dois anos. Por muito tempo, essa forma de imaginação foi considerada um traço exclusivamente humano, mas agora, um estudo inovador indica que os macacos também possuem a capacidade de brincar de faz de conta.
Pesquisa questiona exclusividade humana na imaginação
A pesquisa partiu de uma pergunta simples, porém complexa: um macaco consegue fingir que algo é real, mesmo sabendo que não é? Para explorar isso, cientistas da Universidade Johns Hopkins e da Universidade de St. Andrews adaptaram testes clássicos da psicologia infantil e os aplicaram a Kanzi, um bonobo criado em cativeiro, conhecido por suas habilidades incomuns de comunicação com humanos.
Kanzi aprendeu a usar símbolos gráficos para se expressar ao longo da vida, combinando sinais para criar novos significados, comportamentos raros mesmo entre grandes primatas. O estudo, publicado na renomada revista Science, buscou entender se essa proximidade com humanos poderia revelar traços de imaginação compartilhados.
Como o experimento foi conduzido
O experimento mais emblemático foi uma espécie de festa do suco. Diante de Kanzi, os pesquisadores fingiam despejar suco de uma jarra em dois copos e, em seguida, simulavam esvaziar apenas um deles. Quando perguntado qual copo queria, o bonobo escolheu, em 68% das vezes, aquele que supostamente ainda continha o suco imaginário.
Para descartar a hipótese de confusão entre o real e o fingido, o teste foi repetido com suco de verdade. Nesse cenário, Kanzi escolheu o copo com líquido real em quase 80% das tentativas, indicando que ele conseguia diferenciar entre suco verdadeiro e suco imaginário. Ele demonstrou comportamento similar com uvas artificiais colocadas em potes, escolhendo consistentemente o pote onde os pesquisadores simularam a colocação da uva.
Implicações e limitações do estudo
Christopher Krupenye, pesquisador e um dos autores do estudo, destacou: O que é realmente empolgante neste trabalho é que ele sugere que as raízes da imaginação não são exclusivas da nossa espécie. No entanto, há uma limitação significativa: Kanzi cresceu em contato intenso com humanos, o que dificulta saber se essa habilidade está presente em outros bonobos ou é resultado de uma criação específica.
Kanzi morreu no ano passado, aos 44 anos, meses após a pesquisa, mas seu legado científico permanece. A interpretação dos resultados, porém, não é unânime. Michael Tomasello, psicólogo comparativo da Universidade Duke, que não participou do estudo, avalia que ainda há uma diferença importante entre reagir corretamente a uma encenação e realmente sustentar uma ilusão imaginária.
Para Tomasello, seria mais convincente observar o animal iniciando espontaneamente o faz-de-conta, como fingir despejar água em um recipiente por conta própria. Isso levanta questões sobre a natureza da imaginação animal e como ela se compara à humana.
Conclusão e perspectivas futuras
Este estudo pioneiro abre novas portas para a compreensão da cognição animal, sugerindo que a capacidade de brincar de faz de conta pode não ser um domínio exclusivo dos humanos. Embora as limitações do contato humano com Kanzi sejam evidentes, a pesquisa incentiva investigações futuras com outros primatas em ambientes naturais.
À medida que a ciência avança, descobertas como essa desafiam nossas percepções sobre a inteligência e a imaginação, revelando conexões mais profundas entre espécies. O caso de Kanzi serve como um lembrete valioso da complexidade do mundo animal e das surpresas que ainda aguardam ser desvendadas.