Mãe denuncia abordagem policial a adolescente autista durante crise em escola de Uberaba
Uma situação envolvendo um adolescente de 13 anos diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) gerou revolta e questionamentos em Uberaba, Minas Gerais. A mãe do jovem, Mariana Marçal Rodrigues da Silva, de 36 anos, denunciou o que classificou como despreparo da Escola Municipal Joubert de Carvalho e uma abordagem truculenta da Polícia Militar durante uma crise do filho.
O episódio da crise e a chegada da polícia
Segundo Mariana, o filho estava bem quando foi deixado na escola na manhã do ocorrido. Por volta das 10 horas, após o recreio, a coordenação a chamou informando que o adolescente estava em crise e quebrando bens da instituição. "Eu nunca tinha visto meu filho naquele estado, eu mandei ele para escola bem", afirmou a mãe ao relatar o episódio.
Ao chegar, Mariana encontrou o filho extremamente agressivo e agitado, comportamento que ela descreveu como incomum mesmo durante crises em ambiente doméstico. "É raro ele ter crise na rua. Quero entender o que aconteceu para deixá-lo assim e por que o professor não conseguiu acalmá-lo. Não precisava chegar a esse ponto", questionou.
O adolescente estava contido em uma sala por professores e um portão quando a mãe chegou. Ela pediu que o soltassem para poder se aproximar e acalmá-lo, dizendo "meu filho, é a mamãe". Simultaneamente, solicitou o acionamento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Foi então que percebeu a chegada da Polícia Militar, chamada para conter a situação.
Confronto com a polícia e ameaça de prisão
De acordo com o relato da mãe, uma policial se aproximou do adolescente com algemas, momento em que Mariana reagiu dizendo: "Meu filho não é bandido, eu não te dou autorização", impedindo que a equipe tocasse no jovem.
Quando o Samu chegou e iniciou o procedimento para colocar o adolescente na maca, Mariana se afastou brevemente para ligar e informar sua própria mãe sobre a situação. Ao tentar retornar, foi impedida pela policial, que alegou que ela atrapalhava o atendimento. O desentendimento escalou para empurrões entre as duas, com a policial ameaçando dar voz de prisão à mãe, que se recusou a se afastar do filho.
O episódio deixou vários arranhões em Mariana e provocou forte estresse. Ela afirmou que ninguém deveria passar por situação semelhante e que pretende recorrer à Justiça. Tanto o adolescente quanto a mãe foram levados para atendimento no Hospital Regional de Uberaba José Alencar.
Primeira crise na escola e falta de suporte adequado
Mariana revelou ao g1 que o filho tem nove laudos de diagnóstico de TEA e que esta foi a primeira vez que apresentou crise na escola. A instituição nunca havia registrado queixas sobre o comportamento do adolescente.
Ela destacou ainda que seus dois filhos gêmeos, ambos diagnosticados com TEA, estudam no 8º ano do ensino fundamental na Escola Municipal Joubert de Carvalho há cerca de um ano e não contam com professores de apoio – um direito garantido por lei a alunos com TEA em escolas públicas e privadas.
A mãe relatou que se mudou recentemente para Uberaba. Antes, morou por quatro anos em Veríssimo (MG), onde os filhos sempre tiveram professores auxiliares. Na escola anterior, um relatório assinado pela coordenação pedagógica descrevia o jovem como obediente, bem relacionado com colegas e que aceitava o "não" com facilidade em dias habituais.
Posicionamentos oficiais da escola e da Polícia Militar
Em nota, a direção da escola afirmou que a equipe adotou imediatamente as medidas de cuidado previstas para essas situações, priorizando a integridade do próprio aluno, dos colegas e dos profissionais. De acordo com o posicionamento, a mãe foi acionada de forma imediata e o Samu chamado para os cuidados médicos.
A instituição destacou que a rede municipal vem ampliando continuamente o atendimento inclusivo, com aumento na contratação de professores de apoio e equipes especializadas para acompanhamento dos estudantes com TEA. "Ainda assim, crises podem acontecer e exigem decisões rápidas para preservar vidas e evitar acidentes", afirmou a escola.
A TV Integração questionou a escola sobre quem acionou a PM, mas recebeu como resposta apenas: "por hora essa é a única manifestação", em referência à nota enviada pela instituição.
Já a Polícia Militar, também em nota, informou que foi acionada porque havia um jovem em surto psicótico, danificando o patrimônio da escola e tentando agredir colegas. Segundo a corporação, esse tipo de ocorrência requer protocolos de segurança para preservar a integridade da pessoa em surto e das demais presentes.
Questões sobre inclusão e atendimento adequado
O caso levanta importantes discussões sobre:
- A capacitação de profissionais escolares para lidar com crises de alunos com autismo
- Os protocolos de segurança adotados por forças policiais em situações envolvendo pessoas com condições neurodivergentes
- A efetiva implementação da lei que garante professores de apoio a estudantes com TEA
- O equilíbrio entre segurança coletiva e abordagem humanizada em crises comportamentais
A Secretaria de Educação de Uberaba informou que já está em contato com a família para acolhimento e acompanhamento do caso, além da análise dos procedimentos adotados para aperfeiçoamento permanente do atendimento.