Projeto no Espírito Santo busca devolver jacutingas à natureza após extinção regional
Um projeto desenvolvido no Espírito Santo está trabalhando para reintroduzir a jacutinga, uma das aves mais importantes da Mata Atlântica, em áreas onde desapareceu há décadas. Considerada extinta no Espírito Santo, no Rio de Janeiro e no Sul da Bahia, a espécie é alvo de um ambicioso projeto de conservação conduzido pelo Museu de Biologia Professor Mello Leitão, localizado em Santa Teresa, na Região Serrana capixaba.
Reprodução em cativeiro supera expectativas
O trabalho ganhou força significativa em 2023, quando o instituto recebeu seis jacutingas de criadores conservacionistas e iniciou oficialmente o projeto. Desde então, o número de aves aumentou para impressionantes 26 indivíduos, resultado de um processo de reprodução em cativeiro que superou todas as expectativas da equipe técnica.
"É uma espécie que não encontramos mais no estado do Espírito Santo, nem no Sul da Bahia, nem no Rio de Janeiro", explica a bióloga Flávia Guimarães. "A ideia de ter esses indivíduos aqui é exatamente possibilitar a reprodução para que, no futuro, possamos fazer a reintrodução em locais onde ela ocorria anteriormente".
Causas do desaparecimento e metodologia de conservação
A jacutinga deixou de ser avistada na maior parte da Região Sudeste devido a uma combinação de fatores devastadores:
- Desmatamento intensivo
- Caça predatória
- Extração ilegal de palmito, alimento fundamental para a espécie
No museu, o ciclo de conservação começa ainda na fase de ovo. Em incubadoras especialmente preparadas, temperatura e umidade são rigorosamente controladas para garantir o desenvolvimento saudável dos embriões. Após o nascimento, os filhotes recebem acompanhamento intensivo, com alimentação balanceada e monitoramento diário.
"Eles encontraram um ambiente adequado, alimentação favorável e longe do estresse", afirmou a médica veterinária Mariana Furtado. "Tudo isso favoreceu que a taxa de reprodução fosse boa. Tivemos um número de nascimentos até superior ao que esperávamos".
Preparação para a vida selvagem
À medida que crescem, as aves são transferidas para recintos maiores que simulam as condições da Mata Atlântica. Nesses espaços, aprendem habilidades essenciais para a sobrevivência:
- Equilíbrio em galhos e árvores
- Busca por alimento natural
- Desenvolvimento de comportamentos naturais da espécie
Antes da soltura definitiva, as jacutingas passam por uma fase crucial de isolamento do contato humano. Este período tem como objetivo reduzir a dependência das aves em relação aos cuidadores e aumentar significativamente suas chances de sobrevivência na natureza.
Sistema de monitoramento pós-soltura
Todas as jacutingas recebem microchips e anilhas coloridas que permitem a identificação individual de cada ave. A equipe do projeto também planeja instalar câmeras na área de soltura para acompanhar o deslocamento e adaptação das aves ao ambiente natural.
"Pretendemos colocar câmeras fotográficas na mata para acompanhar naturalmente o indivíduo passando na frente da câmera", detalhou a bióloga Flávia Guimarães. "Assim, é possível saber quais locais estão utilizando e por quanto tempo permanecem ali".
Impacto ecológico da reintrodução
Além do valor simbólico de trazer de volta uma espécie extinta regionalmente, a volta da jacutinga tem impacto direto e mensurável no equilíbrio ecológico da floresta. A espécie desempenha um papel fundamental como dispersora de sementes, contribuindo ativamente para a regeneração da Mata Atlântica e para a manutenção da biodiversidade deste bioma tão ameaçado.
O projeto representa uma esperança concreta para a conservação da fauna brasileira e demonstra como iniciativas científicas bem planejadas podem reverter cenários de extinção local, devolvendo à natureza espécies que haviam desaparecido de seus habitats originais.



