Cachalotes demonstram cooperação extraordinária durante parto no Caribe
Uma cena rara e comovente foi registrada em julho de 2023 ao largo da costa da Dominica, no Caribe: uma fêmea de cachalote segurava um filhote recém-nascido acima da água, momento que revelou um comportamento social complexo e altamente cooperativo entre esses gigantes marinhos. A imagem, capturada pelo Projeto CETI, ilustra descobertas científicas publicadas nas revistas Science e Scientific Reports na última quinta-feira (26), que detalham como o parto dessas baleias envolve muito mais do que apenas a mãe e o bebê.
Comportamento coletivo altamente coordenado
Segundo o estudo conduzido por biólogos marinhos, outras cachalotes adultas se reúnem para auxiliar na primeira respiração do filhote, um momento crítico para a sobrevivência do recém-nascido. Durante observações na região caribenha, os pesquisadores documentaram que a mãe é cercada por outras baleias durante o processo de parto, que durou 34 minutos, sem contar o tempo necessário para a primeira respiração.
"O nascimento é um momento de alto risco para as baleias cachalote, porque os recém-nascidos são inicialmente imóveis e indefesos, muito parecidos com os humanos, e precisam de assistência imediata de outros para chegar à superfície e respirar pela primeira vez, evitando assim o afogamento", explicou David Gruber, biólogo marinho e coautor da pesquisa, que também preside o Projeto CETI.
Participação além dos laços familiares
Os cientistas registraram uma ação coletiva impressionante: 11 cachalotes participaram ativamente do parto, incluindo 10 fêmeas (entre elas a mãe) e um macho adolescente que teve um papel secundário. Alaa Maalouf, membro da equipe de robótica e aprendizado de máquina do Projeto CETI e autor principal de um dos estudos, descreveu o comportamento observado:
"Observamos um período de cuidado altamente cooperativo logo após o nascimento. As baleias formaram um grupo muito unido ao redor do recém-nascido, tocando-o repetidamente, apoiando-o com seus corpos e revezando-se para levantá-lo e empurrá-lo em direção à superfície. O comportamento de levantá-lo continuou por várias horas".
O que torna essa cooperação ainda mais notável é que os indivíduos envolvidos pertenciam a dois grupos familiares que normalmente mantêm distância durante atividades como alimentação. "O que torna esse comportamento especialmente impressionante é que o apoio foi além dos laços de parentesco", destacou Maalouf. "Grupos que costumam se manter mais afastados durante a alimentação parecem se unir no momento do nascimento, o que sugere que a sociedade dos cachalotes pode ser baseada em algo além de vínculos familiares próximos".
Significado científico e histórico
Este registro representa o relato mais detalhado já feito sobre o processo de nascimento de cachalotes ou de qualquer cetáceo na natureza, superando o último registro científico da espécie, que datava de 1986 e se limitava a descrições escritas. Os cachalotes são os maiores cetáceos dentados e possuem o maior cérebro entre todos os animais, pesando aproximadamente 8 kg.
Shane Gero, biólogo-chefe do Projeto CETI e coautor da pesquisa, explicou a estrutura social desses animais: "Os cachalotes machos deixam seus grupos natais no início da adolescência. A avó, as mães e as filhas viverão juntas por toda a vida como um grupo. As fêmeas vivem nesses grupos para defender e criar os filhotes em conjunto, enquanto os machos adultos levam vidas predominantemente solitárias, vagando entre os oceanos em busca de parceiras".
A presença de um macho adolescente durante o parto foi classificada por Gero como "uma surpresa fascinante", destacando a complexidade das interações sociais entre essas baleias.
Paralelos com comportamento humano e ancestralidade evolutiva
Os pesquisadores observaram que o comportamento coordenado de erguer o filhote já havia sido documentado em outras três espécies de baleias dentadas: orcas, falsas-orcas e belugas. Essa similaridade sugere que a prática pode ter origem em um ancestral comum que viveu há mais de 30 milhões de anos, indicando uma evolução comportamental compartilhada.
David Gruber ressaltou as impressionantes semelhanças entre cachalotes e humanos: "As baleias-cachalote compartilham características surpreendentemente semelhantes às dos humanos. Elas possuem o maior cérebro entre todas as espécies e apresentam funções cognitivas complexas, como pensamento consciente e planejamento futuro, além de formas de comunicação e sentimentos como compaixão, amor, sofrimento e intuição".
Os cachalotes, que podem atingir até 18 metros de comprimento nos machos maiores, mantêm sistemas sociais complexos baseados em grupos familiares matrilineares estáveis, geralmente compostos por 10 a 12 indivíduos. Esses grupos cooperam tanto na busca por alimento, que inclui principalmente lulas gigantes em mergulhos profundos, quanto no cuidado com os filhotes, demonstrando uma sofisticação social que continua a surpreender a comunidade científica.



