Após 7 anos, bicudo nasce na natureza e é criado por 'mãe solo' em reserva de Minas Gerais
Bicudo nasce após 7 anos e é criado por 'mãe solo' em MG

Após sete anos de tentativas, bicudo nasce na natureza e será criado por 'mãe solo' em reserva mineira

O silêncio da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Porto Cajueiro, localizada em Januária, no Norte de Minas Gerais, foi rompido por um som que o Brasil não ouvia há muito tempo em vida livre: o piado de um filhote de bicudo (Sporophila maximiliani) nascido da resistência. O nascimento, ocorrido na última sexta-feira (20), não representa apenas um registro biológico, mas sim um feito histórico que coroa quase uma década de esforços para salvar uma das aves mais raras e visadas pelo tráfico de animais no país.

Drama e superação na natureza

A beleza deste capítulo ganha contornos de drama e superação. O pequeno herdeiro da biodiversidade brasileira está sendo criado por uma "mãe solo". No dia 4 de fevereiro, em meio ao processo reprodutivo, o macho do casal desapareceu misteriosamente. "Ou foi predado ou um outro macho brigou com ele e o expulsou do território", explica Gustavo Bernardino Malacco, biólogo e coordenador técnico do Projeto Bicudo.

Mesmo sem o parceiro para protegê-la ou buscar alimento, a fêmea não abandonou o ninho, construído a seis metros de altura em uma árvore da reserva. A cronologia da vida foi acompanhada passo a passo pela equipe técnica. Entre os dias 2 e 3 de fevereiro, o casal estava "bem pareado". Após a cópula, a fêmea, que já havia tentado construir ninhos em arbustos anteriormente, escolheu o local definitivo.

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Incubação solitária e nascimento histórico

No dia 5 de fevereiro, mesmo já sozinha, a fêmea assentou no ninho, sinalizando a postura. "Conseguimos pegar uma primeira imagem de um primeiro ovo e depois, no outro dia, houve um outro, então foram dois ovos", relembra Malacco. Após cerca de 15 dias de incubação solitária — um período de vulnerabilidade extrema — o primeiro nascimento foi confirmado.

Para Malacco, o evento é um divisor de águas. O projeto, que enfrentou um hiato sem financiamento entre 2022 e 2024, sobreviveu graças ao apoio do Ministério Público Estadual. Desde 2018, foram pelo menos sete ou oito tentativas frustradas, onde ovos eram predados ou não estavam férteis. "É histórico o que a gente conseguiu fazer. É um marco no projeto que a gente esperava e sabia que levaria tempo, tentativa e erro. Chegar nesse ponto demonstra que o projeto está no caminho certo", comemora o biólogo.

Próximos passos e futuro da linhagem

O desafio agora é a sobrevivência. O filhote está no seu quarto dia de vida e sendo alimentado exclusivamente pela mãe. A equipe mantém monitoramento diário, aguardando o período de 20 dias, quando o jovem bicudo deve deixar o ninho para enfrentar o mundo. O objetivo final, contudo, é a longo prazo. Malacco projeta que serão necessários entre 5 a 8 anos para observar uma segunda geração nascida desses descendentes reintroduzidos. "É um trabalho com tempo, reintrodução de uma espécie tão especialista, tão rara", define.

Por enquanto, na imensidão do Norte de Minas, uma fêmea solitária prova que a natureza, quando recebe uma segunda chance, sabe exatamente o que fazer. O Projeto Bicudo conta com a união de forças entre a Usina Coruripe, Instituto Ariramba, Fundação Grupo Boticário, Ministério Público de Minas Gerais e diversas universidades (UEMA, USP, UFSCar). A iniciativa integra o programa Parcerias Sustentáveis e mobiliza 15 profissionais dedicados à conservação da espécie.

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