Flagrante raro: bem-te-vi surpreende ao caçar filhotes de pirarucu em parque de Palmas
Um morador de Palmas, no Tocantins, registrou uma cena extraordinária durante uma caminhada matinal no Parque Cesamar. O aposentado Ederaldo Pontes testemunhou algo que nunca havia visto antes na natureza: um bem-te-vi (Pitangus sulphuratus) investindo contra um cardume de filhotes de pirarucu (Arapaima gigas) que nadavam próximos à superfície da água.
Primeiro registro do comportamento
"O que mais me impressionou foi o fato de o bem-te-vi comer peixe. Nunca tinha visto antes", relatou Pontes, ainda surpreso com o flagrante. "Eu estava observando os pirarucus com os filhotes e, de repente, a ave atacou", completou o aposentado, que conseguiu registrar o momento com seu equipamento fotográfico.
Dieta diversificada do bem-te-vi
Segundo o ornitólogo Fernando Igor, o comportamento observado é completamente esperado para a espécie. O bem-te-vi é uma ave onívora com alimentação extremamente diversificada, que inclui:
- Frutos e sementes de origem vegetal
- Insetos e minhocas
- Pequenos peixes e girinos
- Pequenas aves e roedores
"No caso do bem-te-vi, a dieta é bastante ampla. É conhecido o comportamento de pescar pequenos peixes e girinos", explicou o especialista. Em áreas urbanas, a ave já foi registrada consumindo desde ração de animais domésticos até restos de pão, demonstrando sua grande adaptabilidade alimentar.
Pirarucu: predador de topo com cuidado parental intenso
O pirarucu é considerado um predador de topo nos ambientes aquáticos da Amazônia, sua região nativa, e também nas áreas onde foi introduzido, como no estado de São Paulo e em bacias do Rio Paraná e do Nordeste. Por atingir grande porte - podendo ultrapassar dois metros de comprimento quando adulto - e possuir elevada massa corporal, a espécie tem poucos predadores naturais na fase adulta.
De acordo com o professor Jean Vitule, do Departamento de Engenharia Ambiental da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o pirarucu apresenta um cuidado parental notável. "Os predadores de topo costumam investir bastante na proteção da prole", afirmou o especialista.
Os pais realizam cuidado parental dos filhotes por aproximadamente seis meses, período durante os quais:
- Constroem ninhos para os ovos
- Realizam incubação bucal em situações de perigo
- Protegem intensamente os filhotes, especialmente o macho
Fase vulnerável dos filhotes
Durante os primeiros meses de vida, os filhotes de pirarucu nadam próximos à superfície e permanecem agrupados em cardumes densos, conhecidos como "nuvem" de filhotes. Eles costumam ficar assim até atingirem cerca de 50 a 60 centímetros de comprimento, dispersando-se mais quando alcançam aproximadamente um metro.
A predação durante o período de cuidado parental é considerada reduzida, mas pode acontecer, principalmente por parte de aves aquáticas de maior porte, como os biguás - e, como demonstrado no flagrante de Palmas, por aves oportunistas como o bem-te-vi.
"Se o pai está por perto, dificilmente alguém se aproxima dos filhotes, mesmo sendo pequenos. A proteção é intensa", finalizou o professor Vitule, destacando a importância do cuidado parental para a sobrevivência da espécie.
O registro feito no Parque Cesamar serve como importante documentação do comportamento alimentar do bem-te-vi e da interação ecológica entre espécies em ambientes urbanos preservados, oferecendo valiosa oportunidade para estudos sobre a adaptação da fauna local.



