Antas brancas raras despertam estudos e mitos na Mata Atlântica de São Paulo
Antas brancas raras viram símbolo de conservação em SP

Antas brancas raras despertam estudos e mitos na Mata Atlântica de São Paulo

A aparição de animais albinos sempre causa fascínio, mas em Tapiraí, no interior de São Paulo, a presença de antas totalmente brancas transcende o simples inusitado. Ao longo dos anos, esses animais se tornaram parte do imaginário popular e objeto de investigações científicas aprofundadas. O próprio nome da cidade, Tapiraí, que significa "lugar de anta" em língua indígena, revela a forte conexão histórica com a espécie Tapirus terrestris.

Primeiros registros e o início das pesquisas

Em 2014, o biólogo e fotógrafo Luciano Candisani capturou a primeira imagem de uma anta albina em vida livre no Brasil, utilizando armadilhas fotográficas na reserva que mais tarde se tornaria o Legado das Águas, em Tapiraí. Intrigado com relatos locais, ele montou câmeras profissionais para documentar a biodiversidade e confirmar a existência desses animais raros. "Depois dessa fotografia, iniciou-se uma pesquisa para tentar entender a ocorrência do albinismo local", explica Candisani.

Os registros se multiplicaram: em 2016, um funcionário da reserva flagrou uma anta branca nadando no Rio Juquiá, e em 2020, um filhote albino abandonado foi resgatado em Piedade, cidade vizinha, e levado ao Zoológico de Sorocaba, onde faleceu em 2024 devido a uma infecção respiratória.

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Descobertas científicas e a dupla Gasparzinho e Canjica

O estudo científico foi liderado por Mariana Landis, pesquisadora do Instituto Manacá, que destaca a raridade extrema do fenômeno. "Dois indivíduos albinos numa mesma região é como dois raios caindo no mesmo lugar", afirma. Através de análises genéticas de amostras de pelo coletadas com armadilhas especiais, a equipe identificou dois machos adultos albinos, batizados de Gasparzinho e Canjica, e confirmou um alto grau de parentesco entre eles.

Mariana relata que, além desses, foram catalogados relatos de pelo menos seis antas albinas na região, incluindo avistamentos em São Lourenço da Serra e no Parque Estadual do Jurupará, todos em áreas próximas a Tapiraí dentro do bioma da Mata Atlântica.

Fatores que explicam a concentração de albinos

Vários elementos contribuem para a sobrevivência e proliferação desses animais na região. A densa floresta tropical protege as antas albinas da exposição solar excessiva, reduzindo riscos de doenças de pele, e a quase ausência de onças-pintadas, seu principal predador natural na Mata Atlântica, minimiza ameaças. No entanto, a pesquisadora alerta para um problema subjacente: a endogamia.

"O albinismo é uma característica genética recessiva, e encontrar muitos indivíduos assim pode indicar cruzamentos entre parentes", explica Mariana. As análises genéticas concluídas em 2024, em parceria com a Universidade Federal de São Carlos, confirmaram uma baixa variabilidade genética na população local, o que favorece a expressão de genes recessivos como o do albinismo.

Impacto na conservação e no imaginário local

Para Luciano Candisani, as antas brancas se transformaram em uma "espécie bandeira", simbolizando a necessidade de preservação ambiental. "Isso atrai atenção para a proteção de uma área, beneficiando toda a fauna e flora", avalia. O Legado das Águas continua monitorando a fauna, coletando dados sobre antas caçadas ou atropeladas para entender melhor a saúde genética da população.

Recentemente, em fevereiro, uma anta com características de albinismo ou leucismo foi filmada nadando em uma fazenda entre Pilar do Sul e Tapiraí, reacendendo o interesse público. Especialistas ressaltam que, sem observar a coloração dos olhos, é difícil confirmar se é albinismo, mas a condição permanece rara e significativa.

Assim, as antas brancas de Tapiraí não são apenas curiosidades naturais, mas peças-chave em estudos que revelam desafios de conservação genética e inspiram esforços para proteger a rica biodiversidade da Mata Atlântica paulista.

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