Anta sobrevivente de ataque a facão dá à luz filhote saudável em reserva de Mato Grosso
O registro de um filhote de anta (Tapirus terrestris) na reserva Cunhataí Porã, localizada no município de São José do Rio Claro, em Mato Grosso, representa um ciclo de esperança e superação na conservação da fauna brasileira. A mãe do pequeno mamífero, batizada de Judite, é um exemplo de resiliência, pois se recuperou totalmente de um ataque a facão ocorrido no ano de 2025, um episódio que poderia ter tido um desfecho trágico.
Resgate e recuperação de Judite após o ataque criminoso
A história de Judite começou quando ela foi avistada ferida em um rio da região pela equipe da reserva Cunhataí Porã. A anta, que é o maior mamífero terrestre do Brasil, podendo atingir até 300 quilos, teve parte da cabeça atingida por um facão, deixando uma grande cicatriz como sequela. A médica veterinária Gabriela Accardi Iglesias, especialista em animais silvestres, foi acionada para prestar os primeiros socorros.
"A pessoa que a encontrou veio até a clínica me chamar. Foi o primeiro momento em que a vimos e eu a mediquei no rio mesmo. Não havia condição de tirá-la de lá, nem para onde levar naquele dia, então ela ficou ali uns dois dias", relata Gabriela. Após esse contato inicial, Judite desapareceu na mata, levando a nove dias de buscas intensas até que fosse localizada novamente.
Com a ajuda de moradores das redondezas, a equipe conseguiu anestesiar a anta e transportá-la para um curral, onde o tratamento foi concluído. "Foi o dia em que consegui anestesiá-la e levá-la para começar o tratamento de fato. Nós procurávamos e não achávamos. Naquele dia, a encontrei, anestesiei e, com a ajuda de moradores de chácaras da redondeza, colocamos o animal em uma caminhonete", explica a veterinária. Judite não desenvolveu comorbidades devido à lesão e, após total recuperação, foi libertada na reserva, uma área de transição entre o Cerrado e a Floresta Amazônica.
Nascimento do filhote e monitoramento na reserva
Lucas Souza, estudante de biologia que trabalha com monitoramento de fauna na reserva Cunhataí Porã, acompanhou a fase final da gestação de Judite. Ele destaca que a equipe adota uma abordagem de mínima interferência, respeitando o espaço natural dos animais. "Aqui na reserva, a gente evita mexer muito. O cuidado é mais na observação, sempre de longe, respeitando o espaço dela. Só interferimos se realmente tiver algum risco. O filhote nasceu saudável e bem ativo", detalha Lucas.
As câmeras de monitoramento da reserva já capturaram imagens de Judite e seu filhote caminhando pelas trilhas, em vida livre. Em uma cena marcante, minutos após a passagem da dupla, uma onça-pintada (Panthera onca) foi flagrada seguindo o mesmo caminho, mas horas depois, as antas retornaram em segurança pela mesma trilha, demonstrando a saúde do ecossistema.
Lucas avalia a importância desse evento: "Para a gente aqui, isso é muito importante. Mostra que a reserva está funcionando, que o ambiente está saudável. E também dá uma esperança, né? Porque não é só mais um filhote, é a continuação da vida dentro da mata". Ele acrescenta que as antas desempenham um papel crucial na dispersão de sementes, ajudando no crescimento da floresta, o que torna a recuperação e reprodução de Judite um símbolo de sucesso nos esforços de conservação.
Significado da história para a conservação ambiental
Esta história, que poderia ter terminado de forma trágica, prova a força da natureza quando aliada à dedicação de equipes e pessoas comprometidas com a proteção do planeta. A sobrevivência e reprodução de Judite reforçam a importância de reservas como a Cunhataí Porã na preservação da biodiversidade brasileira, oferecendo um exemplo inspirador de resiliência e esperança para futuras gerações.



