Famílias denunciam abandono e furtos no histórico Cemitério do Bonfim em Belo Horizonte
Parentes de pessoas enterradas no centenário Cemitério do Bonfim, localizado na Região Noroeste de Belo Horizonte, estão denunciando a falta crônica de manutenção e os furtos recorrentes que transformaram o local em um espaço de descaso. Os visitantes enfrentam uma realidade perturbadora: mato alto tomando conta dos caminhos, sepulturas abertas expondo restos mortais e atos de vandalismo que profanam a memória dos entes queridos.
Arrombamento e histórico de crimes
Na madrugada deste sábado (11), a situação de insegurança se agravou quando a administração do cemitério foi arrombada. De acordo com a Polícia Militar, os criminosos levaram ferramentas do local. Este incidente não é isolado. No início do ano, a Guarda Municipal já havia prendido dois homens flagrados furtando crucifixos e placas de bronze de jazigos, evidenciando um padrão de criminalidade que assola o espaço sagrado.
A analista de TI Juliana Macedo, que visita regularmente os túmulos de seus familiares, descreve com tristeza a experiência. "A gente encontra sepulturas abertas, então fica uma experiência não muito agradável. Mato bem alto, crucifixo de bronze que a gente deixou pros nossos familiares já foram roubados três, quatro vezes", relata ela, destacando a violação do respeito devido aos falecidos.
Taxa de manutenção e inadimplência
Para manter os jazigos, cada família é obrigada a pagar uma taxa de manutenção de R$ 210. No entanto, um dado alarmante revelado pela prefeitura mostra que a inadimplência chega a quase 60%. Esta falta de recursos, combinada com a má gestão, força muitas famílias a contratarem serviços particulares de limpeza, assumindo um custo extra para garantir a dignidade dos túmulos.
Juliana Macedo comenta sobre essa realidade: "Pessoal costuma parar a gente pra oferecer uma cera na sepultura, dar uma aparada no mato. São muito respeitosos, não temos nada contra essas pessoas, mas a gente paga uma taxa de manutenção e a gente espera que a prefeitura faça esse trabalho". A frustração é palpável entre os que buscam honrar a memória de seus entes em um local que deveria ser preservado com zelo.
Importância histórica e resposta oficial
Inaugurado em 1897, o Cemitério do Bonfim é o mais antigo da capital mineira e abriga os túmulos de mais de 220 mil pessoas, incluindo personalidades ilustres de Minas Gerais, como membros da família Kubitschek e o ex-governador Olegário Maciel. Este patrimônio histórico e cultural está, atualmente, em estado de degradação que contrasta com sua relevância.
A Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica de Belo Horizonte emitiu uma nota afirmando que mantém "rotinas permanentes de manutenção, limpeza e conservação no Cemitério do Bonfim, com equipes atuando regularmente no local". Sobre os furtos, a fundação destacou uma redução nos registros internos após o reforço das ações da Guarda Municipal. Quanto ao arrombamento da administração, informou que "foram adotadas as medidas cabíveis, com acionamento da Guarda Municipal, da Polícia Militar e da Polícia Civil".
Apesar das garantias oficiais, as famílias continuam a testemunhar o abandono, exigindo ações mais efetivas para restaurar a dignidade e a segurança deste espaço de memória coletiva. A situação do Cemitério do Bonfim reflete um problema mais amplo de gestão pública e responsabilidade social, onde o respeito aos mortos e aos vivos que os visitam parece ter sido negligenciado.



