Testemunha desmente versão policial sobre morte de Thawanna Salmázio em ação da PM
Testemunha desmente PM sobre morte de Thawanna Salmázio

Testemunha apresenta versão contraditória sobre morte de Thawanna Salmázio

Uma testemunha ocular que presenciou a abordagem policial que resultou na morte da ajudante-geral Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, em Cidade Tiradentes, na Zona Leste de São Paulo, apresentou nesta sexta-feira (10) um relato que contradiz frontalmente a versão oficial dos policiais militares envolvidos. Segundo a narrativa das autoridades, a vítima teria dado um tapa no rosto da soldado Yasmin Cursino Ferreira, justificando o disparo fatal. No entanto, o empreendedor Erick Levy, que assistiu a toda a cena, afirmou à TV Globo que a agressão partiu inicialmente dos agentes.

Detalhes do confronto segundo testemunha

Erick Levy descreveu uma sequência de eventos bastante diferente da apresentada pela Polícia Militar. Ele relatou que a viatura avançou na direção do casal, que caminhava pela rua durante a madrugada, resultando no retrovisor batendo no braço do marido de Thawanna. "Eu vi a viatura jogando para cima deles", afirmou o testemunho. "Foi no momento em que a policial saiu toda agressiva, chamando de 'vagabunda'. A Thawanna falou: 'Vagabunda é você, eu só perguntei porque você jogou o carro para cima de mim'".

Segundo seu depoimento, a soldado Yasmin teria iniciado as agressões físicas: "A policial deu um murro nela e chutou as partes íntimas dela. A Thawanna foi para trás, deu uma respirada, e deu um tapa na mão da policial. A policial foi para trás e deu um tiro na Thawanna". Esta narrativa nega categoricamente a alegação de que o tapa teria sido desferido no rosto da agente, apresentando um cenário de escalada violenta iniciada pelos policiais.

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Investigações em andamento e demora no socorro

O Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) iniciou oficialmente a oitiva de testemunhas e familiares nesta sexta-feira. Entre os primeiros a serem ouvidos estão o companheiro da vítima e moradores da região que presenciaram a ocorrência. Outra testemunha, o artista plástico Vinícius dos Santos Rocha, classificou a abordagem como "arbitrária", relatando que os policiais perseguiam inicialmente um motociclista antes de se envolverem no confronto fatal.

A demora no resgate emergencial tornou-se outro ponto crucial da investigação. Thawanna Salmázio faleceu por hemorragia interna aguda, conforme atestado do Instituto Médico Legal, com socorristas afirmando que a espera por atendimento contribuiu diretamente para o agravamento do quadro. A vítima aguardou mais de 30 minutos por socorro, apesar da existência de bases do Corpo de Bombeiros a poucos minutos do local.

  • A base mais próxima situa-se na Avenida dos Metalúrgicos, em Cidade Tiradentes, a aproximadamente 6 minutos de distância
  • A segunda mais próxima está na Rua Luís Mateus, em Guaianases, a cerca de 13 minutos
  • A meta estabelecida pela Polícia Militar para atendimentos de emergência é de até 20 minutos
  • Em 2019, apenas 58% das ocorrências atendidas pelos Bombeiros cumpriram este prazo

Análise das imagens das câmeras corporais

As gravações das câmeras corporais revelam uma cronologia detalhada dos eventos ocorridos na madrugada de 3 de abril. As imagens mostram o momento exato em que o retrovisor da viatura atinge Luciano Gonçalves dos Santos, marido de Thawanna, enquanto o casal caminhava pela Rua Edimundo Audran. A calçada estreita, com menos de um metro de largura, força os moradores a utilizarem a via para deslocamento.

O soldado Weden Silva, que dirigia o veículo e filmava com sua bodycam, é ouvido xingando o casal após a colisão: "A rua é lugar para você tá andando, c*?". Thawanna responde: "Com todo respeito, vocês que bateram em nós". A soldado Yasmin, que não utilizava câmera corporal por ser novata e não ter recebido senha para o equipamento, desce da viatura e parte em direção à mulher.

Os registros mostram que, seis segundos após Weden descer para discutir com Luciano atrás do veículo, ouve-se o disparo. Ao se aproximar, o policial pergunta: "Atirou? Cê atirou nela?". Yasmin responde justificando: "Ela deu um tapa na minha cara", versão que Luciano imediatamente contesta: "Bateu, não!".

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Sequência temporal do atendimento

  1. 2h58 – Viatura da PM entra na rua e retrovisor atinge braço de Luciano
  2. 2h59 – Disparo é ouvido; Yasmin alega tapa no rosto
  3. 3h00 – Outra viatura policial chega ao local
  4. 3h03 – Weden inicia primeiros socorros enquanto aguarda resgate
  5. 3h16 – Policial cobra chegada de ambulância ao perceber piora no estado da vítima
  6. 3h26 – Weden sugere a Yasmin que seria interessante encontrar câmera que mostrasse o suposto tapa
  7. 3h27 – O mesmo policial comenta: "Não era pra ter atirado não, mas..."
  8. 3h30 – Ambulância do Corpo de Bombeiros chega após mais de 30 minutos de espera
  9. 3h37 – Policial militar de plantão para a Justiça Militar recolhe arma de Yasmin
  10. 3h43 – Os dois policiais envolvidos deixam o local em outra viatura

A Secretaria da Segurança Pública informou que todas as circunstâncias estão sendo investigadas com prioridade pelo DHPP e através de Inquérito Policial Militar, com acompanhamento das corregedorias das instituições envolvidas. Os dois policiais foram afastados das atividades operacionais, e as imagens das câmeras corporais foram anexadas aos inquéritos. O Corpo de Bombeiros também instaurou sindicância para apurar a demora no atendimento à vítima.