Famílias liberam corpos de vítimas de PM em Cariacica e clamam por justiça após execução
Famílias liberam corpos de vítimas de PM em Cariacica

Famílias liberam corpos de vítimas de PM em Cariacica e clamam por justiça após execução

"Eu quero justiça" – essa foi a mensagem emocionada da irmã da vendedora autônoma Francisca Chaguiana Dias Viana, de 31 anos, morta a tiros junto com sua companheira, Daniele Toneto, pelo cabo da Polícia Militar Luiz Gustavo Xavier do Vale, na última quarta-feira, em Cariacica, na Grande Vitória. A dona de casa esteve no Instituto Médico Legal (IML) de Vitória nesta quinta-feira (9) para reconhecer o corpo da irmã, tendo viajado especialmente do Maranhão para o Espírito Santo para realizar a liberação.

Dor familiar e exigência por justiça

Segundo a irmã de Francisca, a dor da família é imensa e todos cobram por justiça pela morte do casal. "A forma como morreu foi horrível. Ninguém merece. Até porque, não vi ela reagindo e nem nada. Ele chegou lá e executou as duas. Esse homem é um psicopata. Não pode estar com uma arma e nem nas ruas. Eu quero justiça. Minha família está no Maranhão, mas vamos correr atrás", declarou ela, em meio à comoção.

Vídeo revela momento brutal do crime

Um vídeo obtido pela reportagem da TV Gazeta mostra o momento em que as mulheres são assassinadas a tiros, no meio da rua. As imagens exibem Daniele Toneto e Francisca Chaguiana sentadas na calçada quando uma viatura chega em alta velocidade e para, seguida por outra. Os policiais descem e, segundos depois, Francisca é baleada e cai. Daniele tenta fugir, mas é executada. Francisca ainda aparece se mexendo e chegou a ser socorrida, porém não resistiu aos ferimentos.

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Contexto e motivação do crime

O principal suspeito do crime é o cabo da Polícia Militar Luiz Gustavo Xavier do Vale, que estava de serviço no momento dos disparos. Testemunhas relataram que a confusão pode ter sido motivada por uma desavença familiar envolvendo a ex-esposa do militar e as vítimas, que eram um casal e moravam no mesmo prédio. O crime ocorreu por volta das 10h30, no bairro de Cariacica.

Segundo moradores, a ex-companheira do agente teria sido ameaçada pelo casal horas antes do crime. A discussão teria começado por causa de um ar-condicionado, com acusações sobre um possível furto de energia, apesar de residirem em andares distintos. Na manhã de quarta (8), elas voltaram a discutir, e as vítimas teriam mencionado o filho que a ex-esposa do PM tem com ele. Foi nesse momento que ela acionou o ex-marido, que estava fardado e em horário de trabalho.

Histórico do policial e investigações

O cabo da PM Luiz Gustavo Xavier do Vale já responde a um processo por envolvimento na morte de uma mulher trans ocorrida em julho de 2022, em Cariacica. Por conta desse caso, que teve como vítima a mulher trans Lara Croft, de 34 anos, o policial estava afastado das atividades nas ruas. Na ocasião, a corporação informou que, durante patrulhamento, o cabo e outro PM abordaram a vítima e um homem por suspeita de atitude suspeita, e ambos teriam resistido.

No entanto, o laudo da perícia da Polícia Civil apontou que a vítima foi atingida na mão esquerda, no peito, no pescoço, no rosto e nas costas. Segundo o comandante-geral da Polícia Militar do Espírito Santo, coronel Ríodo Rubim, o caso foi conduzido com rigor. "Ele foi denunciado pelo Ministério Público, e a Justiça aceitou. Atualmente, ele não atuava nas ruas, mas em função interna", explicou. O cabo atuava como guarda em uma companhia da corporação em Itacibá.

Responsabilização de colegas e críticas

Os colegas de trabalho do cabo da Polícia Militar Luiz Gustavo Xavier do Vale também podem responder pelos assassinatos. O vídeo do momento do crime mostra que os policiais não fizeram nada para impedir a ação do PM, que atirou nas mulheres desarmadas. É o que explicou o professor e mestre em Segurança Pública Henrique Herkenhoff.

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Para o especialista, os policiais não deveriam ter acompanhado o militar – que estava em horário de trabalho – após ele ser acionado pela ex-esposa, em meio a uma briga dela com as vizinhas. "É inadmissível que um servidor público utilize o cargo para resolver seus problemas pessoais", declarou Henrique Herkenhoff. "Os colegas que foram apoiá-lo, se não estavam sob comando adequado, também estavam cometendo irregularidades que precisam ser apuradas pela Corregedoria e pelo Ministério Público. Se a ex-esposa de um policial tem um problema, ela deve acionar o Ciodes (Centro Integrado de Operações de Defesa Social), como qualquer cidadão. O policial que atender à ocorrência precisa agir com isenção, não para apoiar um colega e pressionar ainda mais", completou o especialista, em entrevista ao Bom Dia Espírito Santo (TV Gazeta).

Ao deixar o posto para se deslocar até o local do crime desta quarta-feira, o cabo também passou a ser investigado, intensificando as demandas por justiça das famílias das vítimas e da comunidade local.