Família de Barra Bonita denuncia agressão e invasão de casa por PMs sem mandado judicial
Uma família residente em Barra Bonita, no interior de São Paulo, formalizou uma denúncia grave contra policiais militares por agressão física, abuso de poder e invasão de domicílio sem a apresentação de mandado judicial. O incidente, registrado na noite do dia 18 de dezembro de 2025, veio à tona nesta sexta-feira (10), com o acesso exclusivo do g1 às imagens de câmeras de segurança e aos documentos da denúncia.
Detalhes da invasão e agressões
Conforme as gravações, os policiais adentraram o imóvel às 19h54, aproveitando-se do portão da garagem que estava aberto devido a obras em andamento. Após acessarem a propriedade, os agentes abriram a porta que dava acesso à sala da residência, onde se encontravam o casal e um dos filhos, um jovem com deficiência e diagnóstico de esquizofrenia. No boletim de ocorrência, os PMs alegaram que a porta estava entreaberta, mas as imagens contradizem essa versão.
O marido, ao questionar a entrada dos policiais, não obteve resposta e foi empurrado, agredido com um tapa no rosto e teve seu celular apreendido. Dois policiais entraram no local portando lanternas e armas em punho, sem se identificar adequadamente. "Avistou uma pessoa portando uma lanterna e uma arma nas mãos adentrando em sua residência pelo portão basculante. Com a aproximação, percebeu que eram dois policiais. Os policiais não falaram nada, continuaram a entrada, quando um deles o empurrou e deu um tapa no rosto", descreve um trecho do termo de declaração prestado à Polícia Judiciária Militar.
Escalada da violência e tentativa de apagar evidências
Pouco depois, outro filho do casal chegou ao local e começou a gravar a ação com seu celular, questionando a conduta dos policiais. Após uma discussão, a família conseguiu fazer com que os agentes deixassem a residência e fechou o portão. No entanto, minutos mais tarde, a mãe reabriu o portão para recuperar o celular do marido, que havia ficado com os PMs. Ao retomar o aparelho, o homem voltou a filmar e a questionar a ação, dizendo: "O senhor não tem direito, me deu um soco na cara. Você não tem mandado, não tem nada, entendeu? Que direito você tem?".
Na sequência, houve uma nova discussão entre um dos filhos e os policiais, que entraram à força novamente no imóvel e insistiram em levá-lo à delegacia por desacato. A mãe tentou impedir a condução e foi agredida, com um dos policiais puxando seu cabelo e fazendo-a cair no chão. Segundo o termo de declaração, a mulher necessitou de atendimento médico na Santa Casa de Barra Bonita após o ocorrido. O jovem foi algemado e levado na viatura, enquanto um dos policiais retornou para falar com o pai e exigiu que as gravações fossem apagadas. "O celular foi restituído e os policiais o mandaram apagar as filmagens, o que foi feito", afirma o documento.
Versão da polícia e arquivamento do caso
O g1 também teve acesso ao boletim de ocorrência registrado por desacato, no qual os PMs afirmam que estavam em patrulhamento quando abordaram um homem sentado na calçada em frente ao imóvel. Como nada de ilícito foi encontrado e o homem não soube informar se morava no local, os policiais decidiram entrar na residência. Posteriormente, constatou-se que o homem não tinha relação com os moradores. Os policiais relataram que o filho do casal passou a xingar a equipe, motivo pelo qual foi conduzido à delegacia, sendo liberado após prestar depoimento.
O registro, porém, omite qualquer menção à resistência à condução ou à luta corporal com a mãe do jovem, que aparece claramente nas imagens. Em nota oficial, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) informou que o caso foi investigado por meio de Inquérito Policial Militar (IPM) e arquivado. "A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informa que as circunstâncias do caso foram apuradas por meio de Inquérito Policial Militar (IPM). Durante as investigações, todas as partes foram ouvidas e as imagens analisadas, resultando no arquivamento do procedimento", diz a nota.
Este caso levanta sérias questões sobre abuso de autoridade e a efetividade das investigações internas, especialmente diante de evidências visuais que contradizem as versões oficiais. A família continua buscando justiça, enquanto o arquivamento do IPM deixa dúvidas sobre a transparência e a responsabilização nas ações policiais.



