Câmeras corporais revelam abusos em ação policial que matou mulher em São Paulo
A ação policial que resultou na morte de Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, na Zona Leste de São Paulo, foi marcada por uma sequência de abusos e violência desde o primeiro contato, configurando-se mais como uma briga entre agentes e civis do que uma abordagem legítima. As imagens das câmeras corporais, obtidas exclusivamente, mostram o desrespeito aos protocolos da Polícia Militar, conforme análise de especialistas ouvidos.
O início do confronto
Na madrugada de sexta-feira (3), Thawanna e seu marido, Luciano Gonçalvez dos Santos, caminhavam de mãos dadas pela Rua Edimundo Audran, em Cidade Tiradentes, quando uma viatura da PM passou pelo local. A confusão começou quando Luciano esbarrou no retrovisor do veículo. O policial Weden Silva Soares deu ré e iniciou uma discussão agressiva com o casal, utilizando xingamentos. Em seguida, a soldado Yasmin Cursino Ferreira, que estava no banco do passageiro, desceu da viatura e também passou a discutir com Thawanna.
A situação escalou rapidamente, culminando com Yasmin efetuando um disparo contra a mulher. Após aproximadamente trinta minutos, Thawanna foi socorrida ao Hospital Tiradentes, mas não resistiu aos ferimentos. A policial alega que reagiu após ser atingida com um tapa no rosto, versão contestada pelas imagens e testemunhas.
Análise de especialistas: uma sucessão de abusos
Para Adilson Paes de Souza, tenente-coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e pesquisador em segurança pública, o episódio é um absurdo que não segue nenhum protocolo da corporação. Ele destaca que houve uma sequência de abusos que terminou na morte de Thawanna, que, em sua avaliação, deveria ser investigada como homicídio qualificado por motivo fútil.
"É abuso desde o começo. O linguajar que o policial usa com a pessoa, o vídeo mostra. Quem começou agredindo foram os policiais militares. Assim que ele dá ré, já começa a discutir com o casal", afirma o especialista. Os abusos continuaram mesmo após o disparo, com os agentes impedindo que Luciano se aproximasse da esposa enquanto ela agonizava no chão.
O tenente-coronel reforça que uma pessoa só pode ser abordada por um agente quando há fundada suspeita de envolvimento em crime, baseada em elementos objetivos. Contudo, ele critica que essas regras não são seguidas na prática, especialmente nas regiões periféricas, que recebem tratamento diferenciado das áreas nobres da cidade.
"As normas da polícia não valem nada, absolutamente nada na vida real. Nós caímos no padrão de atuação em territórios ditos conflagrados, onde há inimigos. Periferia, pretos ou pardos e pobres. Encaixou em um desses quesitos, ou nos três, é inimigo e merece sofrer toda e qualquer ação do Estado", declara Paes de Souza, comparando o caso a episódios históricos de violência policial em São Paulo, como o Massacre do Carandiru e os Crimes de Maio de 2006.
Falhas na ação policial e uso de câmeras
Na avaliação de Cláudio Aparecido da Silva, ex-ouvidor das polícias de São Paulo, o ocorrido não pode ser chamado de abordagem, mas sim uma desinteligência ou briga entre policiais e o casal. Ele aponta uma série de falhas na atuação dos agentes, começando pela forma como o patrulhamento foi realizado.
Uma das falhas destacadas é o fato de a viatura estar com os sinalizadores desligados, mesmo sendo uma polícia ostensiva, o que pode ter contribuído para o início da ocorrência, já que o casal não teria sido alertado da aproximação do carro. Silva também questiona a condução da viatura, pois o patrulhamento deve ser feito em velocidade que permita observar o entorno para evitar situações de risco.
Para o especialista, o uso de força letal não se justifica, lembrando que o disparo de arma de fogo só deve ocorrer em situações de risco iminente à vida, o que não aconteceu no caso de Thawanna. Além disso, Cláudio Silva aponta falha no uso das câmeras corporais, já que a soldado Yasmin não portava o equipamento, uma omissão que deveria ter sido percebida pelo comando.
O que mostram as imagens
Nas gravações, é possível ver o interior da viatura onde estavam os soldados Weden, que dirigia o carro e usava a câmera corporal, e Yasmin, que não portava o equipamento por ser recém-formada na corporação. Às 2h58, eles entraram na Rua Edimundo Audran. Pouco depois, o retrovisor da viatura bateu no braço de Luciano.
O soldado Weden parou o veículo, deu ré e disse: "A rua é lugar para você estar andando, ca*****?". Em seguida, Luciano falou: "Ô, Steve", gíria usada por policiais para se referir a um colega de farda. O policial rebateu: "Steve, o ca*****!". Thawanna, então, disse: "Não, não, com todo o respeito, vocês que bateram em nós".
A policial Yasmin desceu da viatura, e é possível ouvir Thawanna dizendo à militar para não apontar o dedo para ela. Em seguida, foi efetuado o disparo. As imagens também mostram que outra viatura chegou ao local às 3h, e o soldado Weden relatou o ocorrido, tentando fazer os primeiros socorros até a chegada do resgate, que ocorreu às 3h30.
Versões conflitantes e investigações
A policial Yasmin, responsável pelo disparo, e os demais agentes envolvidos no caso foram afastados de suas funções, segundo a Secretaria da Segurança Pública (SSP). O caso está sendo investigado pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP).
A família da vítima afirma que a policial não realizou nenhuma abordagem e atirou diretamente, enquanto a PM alega que Thawanna teria partido para cima da equipe. Luciano contou que a viatura passou em alta velocidade, quase atingindo o casal, o que provocou a reação de Thawanna. Testemunhas corroboram essa versão, relatando que a policial desceu da viatura xingando a vítima e iniciando uma discussão.
A morte de Thawanna desencadeou uma série de protestos de moradores do bairro, que denunciam a violência da Polícia Militar. A SSP informou que todas as circunstâncias do caso são investigadas com prioridade, com as imagens das câmeras corporais anexadas aos inquéritos e sob análise rigorosa.



