Imagens exclusivas revelam detalhes de ação policial fatal na Zona Leste de São Paulo
As imagens das câmeras corporais de policiais militares obtidas pela reportagem mostram com detalhes a ação que terminou com a morte de Thawanna Salmázio na Zona Leste de São Paulo no dia 3 de abril. O policial Weden Silva Soares, envolvido diretamente no episódio, apresentou à Corregedoria uma justificativa que tem causado indignação: afirmou que não prestou os primeiros socorros à vítima porque havia apenas uma gaze disponível na viatura.
Sequência de eventos que levou à tragédia
Por volta das 3 horas da madrugada, Thawanna caminhava de mãos dadas com o marido, Luciano Gonçalvez dos Santos, pela Rua Edimundo Audran, uma via estreita no bairro da Penha, quando uma viatura da PM passou pelo local. O retrovisor do veículo atingiu Luciano, dando início a uma sequência de eventos trágicos. O soldado Weden, que dirigia a viatura, deu ré e iniciou uma discussão acalorada com o casal.
Em seguida, a soldado Yasmin Cursino Ferreira, que ocupava o banco do passageiro, desceu do veículo e também passou a discutir com Thawanna. A situação escalou rapidamente até o momento em que Yasmin efetuou um disparo contra a mulher. Thawanna só recebeu atendimento médico aproximadamente 30 minutos depois, mas não resistiu aos ferimentos causados pelo tiro.
Justificativas questionáveis dos policiais envolvidos
No depoimento prestado à Corregedoria, o policial Weden apresentou uma série de explicações que têm sido amplamente questionadas por especialistas em segurança pública. Além de afirmar que não realizou os primeiros socorros por falta de material adequado na viatura, o agente declarou que não portava taser porque o equipamento não estava disponível para todas as viaturas do batalhão.
Sobre a ausência da câmera corporal na colega Yasmin, Weden explicou que a policial era recém-formada e que os agentes da sua turma ainda não tinham acesso ao sistema de gravação. Em relação ao esbarrão inicial que atingiu Luciano, o policial afirmou que não tentou desviar o veículo porque não acreditava que a viatura pudesse atingi-lo.
Especialistas apontam sucessão de abusos e falhas graves
Para Adilson Paes de Souza, tenente-coronel da reserva da Polícia Militar de São Paulo e pesquisador em segurança pública, o episódio representa um "absurdo" que não segue nenhum protocolo estabelecido pela corporação. Segundo sua análise, houve uma sequência de abusos que culminou na morte de Thawanna, que deveria ser investigada como homicídio qualificado por motivo fútil.
"É abuso desde o começo. O linguajar que o policial usa com a pessoa, o vídeo mostra claramente. Quem começou agredindo foram os policiais militares. Assim que ele dá ré, já começa a discutir com o casal", afirma o especialista, que destaca ainda que os abusos continuaram mesmo após o disparo, quando os agentes impediram que Luciano se aproximasse da esposa enquanto ela agonizava no chão.
Falhas estruturais na ação policial
Cláudio Aparecido da Silva, ex-ouvidor das polícias de São Paulo, avalia que o ocorrido sequer pode ser classificado como uma abordagem policial adequada. Na sua visão, tratou-se de uma "desinteligência", ou seja, uma briga entre policiais e civis. O especialista aponta uma série de falhas estruturais na atuação dos agentes:
- A viatura estava com os sinalizadores desligados, mesmo sendo uma polícia ostensiva
- A condução do veículo não permitia observar adequadamente o entorno da rua
- O uso de força letal não se justificava, já que não havia risco iminente à vida
- Falha no uso das câmeras corporais, equipamento fundamental para transparência
"Não justifica. Além de uma falha dela de não estar com equipamento, tem uma falha do comando dela. O comando deveria ter percebido a falta do equipamento", explica Cláudio Silva sobre a ausência da câmera corporal na soldado Yasmin.
O que revelam as imagens das câmeras corporais
Nas gravações obtidas pela reportagem, é possível observar o interior da viatura onde estavam os soldados Weden, que dirigia o carro e usava a câmera corporal, e Yasmin, que não portava o equipamento. Às 2h58, eles entraram na Rua Edimundo Audran. Pouco depois, o retrovisor da viatura bateu no braço de Luciano.
O soldado Weden parou o veículo, deu ré e iniciou a discussão com palavras de baixo calão. A situação escalou rapidamente até que a soldado Yasmin desceu da viatura e, após breve troca de palavras com Thawanna, efetuou o disparo fatal. As imagens mostram ainda que outra viatura chegou ao local às 3h, e que o resgate só apareceu às 3h30.
Investigações em andamento e afastamento dos agentes
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) informou que todas as circunstâncias do caso estão sendo investigadas com prioridade pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) e por meio de Inquérito Policial Militar (IPM). Os dois policiais envolvidos foram afastados das atividades operacionais até a conclusão das investigações.
"As imagens das câmeras corporais foram anexadas aos inquéritos e estão sob análise da autoridade policial, integrando o conjunto probatório do caso", afirmou a SSP em nota, ressaltando que todas as provas estão sendo analisadas com rigor. O Ministério Público também instaurou procedimento próprio para investigar a morte de Thawanna.
Este caso ocorre em um contexto preocupante: dados recentes mostram que as mortes cometidas por policiais militares em serviço aumentaram significativamente no estado de São Paulo em 2025, levantando questões urgentes sobre protocolos, treinamento e controle do uso da força pelas instituições de segurança pública.



