Polícia investiga imagens de câmera corporal que mostram morte de mulher por PM em São Paulo
A Polícia Militar de São Paulo está investigando as imagens de uma câmera corporal que registrou minuto a minuto a abordagem que terminou na morte de Thawanna da Silva Salmázio, de 31 anos, na Zona Leste da capital paulista. A policial responsável pelo disparo é a soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, aprovada no concurso da corporação em novembro de 2024 e atualmente em estágio supervisionado, conforme revelado pelo Diário Oficial.
Detalhes da ocorrência e falhas nos protocolos
Na madrugada de sexta-feira (3), Thawanna e seu marido, Luciano Gonçalvez dos Santos, caminhavam de mãos dadas pela Rua Edimundo Audran, em Cidade Tiradentes, quando uma viatura da PM passou pelo local. Segundo as imagens da câmera corporal do soldado Weden Silva Soares, que dirigia o veículo, o retrovisor bateu no braço de Luciano, iniciando uma discussão que rapidamente escalou. A soldado Yasmin, que não portava câmera corporal, desceu da viatura e, após uma troca de palavras, efetuou um disparo contra Thawanna, que foi socorrida mas não resistiu aos ferimentos.
Especialistas em segurança pública ouvidos pela reportagem classificam o episódio como um "absurdo" que desrespeitou todos os protocolos da Polícia Militar. Adilson Paes de Souza, tenente-coronel da reserva da PM-SP, afirma que houve uma sequência de abusos desde o início, com linguajar inadequado e agressões por parte dos policiais, configurando-se como uma briga e não uma abordagem legítima. Ele ressalta que uma abordagem só é permitida quando há fundada suspeita de crime, o que não era o caso.
Análise de especialistas sobre a ação policial
Cláudio Aparecido da Silva, ex-ouvidor das polícias de São Paulo, aponta uma série de falhas na atuação dos agentes:
- A viatura estava com sinalizadores desligados, dificultando a percepção do casal sobre sua aproximação.
- A condução do veículo pode ter sido inadequada para um patrulhamento ostensivo.
- O uso de força letal não se justificava, pois não havia risco iminente à vida dos policiais.
- A soldado Yasmin não portava câmera corporal, equipamento essencial para transparência e responsabilização.
O neurocirurgião Wellingson Paiva, professor da USP, acrescenta que, aos 21 anos, o cérebro ainda está em desenvolvimento, especialmente nas áreas relacionadas ao controle de impulsos e planejamento, o que pode influenciar comportamentos em situações de tensão.
Repercussões e investigações em andamento
O Ministério Público de São Paulo instaurou um procedimento para investigar a morte de Thawanna, enquanto a Secretaria da Segurança Pública (SSP) afastou os policiais envolvidos das atividades operacionais. A família da vítima e testemunhas relatam que a viatura foi jogada contra o casal de propósito, e que Thawanna não apresentava comportamento agressivo. Em contrapartida, a PM alega que o casal mostrava sinais de embriaguez e que Thawanna partiu para cima da soldado Yasmin, desferindo tapas.
O caso tem gerado protestos de moradores do bairro, que denunciam a violência policial e exigem justiça. As imagens da câmera corporal estão sendo analisadas pelo Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), integrando o conjunto probatório que inclui laudos periciais e depoimentos.



