Violência contra mulher no interior de SP: mais de 357 mil casos em 10 anos e histórias de superação
Violência contra mulher no interior de SP: 357 mil casos em 10 anos

Violência contra mulher no interior de SP: mais de 357 mil casos em 10 anos e histórias de superação

Nos últimos dez anos, o interior do estado de São Paulo registrou um número alarmante de casos de violência contra mulheres. Conforme dados do painel da violência da Secretaria de Segurança Pública (SSP), analisados pelo g1, foram mais de 357 mil ocorrências de lesão corporal dolosa – quando há intenção – contra mulheres no período de 2015 a 2025. No oeste paulista, entre as vítimas que enfrentaram essa realidade, está a assistente social Lucinete Aparecida Santiago Lima, conhecida como Lucy Lima, residente em Presidente Prudente.

Dados estatísticos revelam cenário preocupante

No intervalo analisado, aproximadamente 59% dos casos registrados em todo o estado de São Paulo ocorreram no interior. Somente em 2025, o interior paulista somou 38.437 casos de lesão corporal dolosa contra mulheres, o que representa uma média de 105 casos por dia, ou quase um caso a cada 14 minutos. A atualização mais recente do painel da SSP, referente a janeiro deste ano, apontou 3.772 casos, um aumento de quase 12% em comparação com o mesmo período de 2025, quando foram registrados 3.376 casos.

A trajetória de superação de Lucy Lima

Na última reportagem da série "Histórias que inspiram", o g1 relembra a jornada da assistente social Lucy Lima, que ressignificou anos de violência doméstica. Moradora de Presidente Prudente, Lucy fez parte dessas estatísticas por mais de uma década. Ela relata um momento crucial de desespero: "Quando de fato consegui me libertar, depois de um momento de desespero e tentativa de suicídio, onde eu estava com uma garrafa de álcool nas mãos e o fósforo na outra, andando no corredor de uma casa alugada, ‘ouvi’ uma voz dizendo ‘não faça isso’. Voltei chorando ao banheiro e comecei a conversar em frente ao espelho".

Lucy, que adotou esse nome após superar a violência, descreve como começou a conversar com sua própria imagem no reflexo, recebendo palavras de empoderamento e ânimo. Na época, em 2012, ela estava grávida de seis meses, fruto de um estupro cometido pelo próprio marido, com quem já tinha três filhos. Hoje, seus filhos têm idades de 21, 18, 16 e 13 anos. "Eu não tinha uma rede de apoio e também não podia contar com ninguém, os filhos sofriam junto comigo, e ninguém se metia, todos tinham medo, amigos, vizinhos e até o agente de saúde, minha família...", lamenta.

Quebra do ciclo de violência e novas perspectivas

Apesar das dificuldades, Lucy viu uma oportunidade ao passar em um concurso público e assumir um cargo na área de gestão. "Mudou minha história e a dos meus filhos", celebra. Em 2013, incentivada pela mãe – que nunca soube dos abusos –, ela começou a faculdade de serviço social, concluindo o curso em 2017, já separada do agressor. Atualmente, Lucy atua na área, ajudando outras mulheres a lidar com situações similares por meio de acolhimento e palestras, e planeja abrir uma ONG. "Porque jamais vamos conseguir nos libertar das sequelas, convivemos com elas. Eu ainda me olho no espelho e vejo os dentes tortos de murros que recebi, porém, a vontade de viver me traz sempre um sorriso tímido e de esperança. A cura está em um propósito: ser a rede de apoio de alguém", reflete.

Análise especializada sobre violência no interior

Carol Simon, professora, pesquisadora, feminista e doutora em Geografia pela Unesp, além de militante da Frente Pela Vida das Mulheres em Presidente Prudente, analisa os motivos para a alta incidência de violência contra mulheres no interior. "Na minha concepção, o feminicídio é um fenômeno geográfico composto por uma série de injustiças espaciais e complexidades territoriais. Nós temos que entender que a rede especializada de combate à violência contra a mulher é extremamente centralizada nas capitais, nas cidades maiores", explica.

Ela destaca que, em um país com 5.570 municípios, mais de 80% são pequenos, o que dificulta a fuga das vítimas. "As mulheres em situação de violência em cidades pequenas e médias têm grande dificuldade de estabelecer rotas de fuga da violência, porque os agressores conhecem as pessoas e a cidade, por ser pequena, não permite uma ampla mobilidade dessas mulheres", complementa. Carol reforça a necessidade de políticas públicas regionalizadas para enfrentar o problema.

Legislação e desafios contínuos

Ao longo dos anos, as mulheres conquistaram direitos importantes, como a Lei Maria da Penha, a Lei do Feminicídio, a Lei do Stalking e a Lei do Minuto Seguinte. No entanto, Carol Simon pontua que a luta feminista contra o patriarcado é estrutural e contínua. "Nós temos leis que são excelentes, mas ainda não temos a efetivação das políticas públicas para que realmente possamos salvar a vida das mulheres", afirma. Ela ressalta a importância de redes de atendimento, como delegacias especializadas e casas-abrigo, presentes em apenas 20% dos municípios brasileiros.

Em meio a esse cenário, histórias como a de Lucy Lima servem como inspiração e alerta para a urgência de ações efetivas no combate à violência contra mulheres, especialmente no interior do estado de São Paulo.