Tenente da PM é preso por estupros em Manaus; vítima relata abusos desde os 8 anos
Uma jovem de 17 anos revelou pela primeira vez à Rede Amazônica os abusos sexuais que sofreu do tenente da Polícia Militar do Amazonas Osvaldo Lima da Silva, quando tinha apenas 8 anos de idade. Os crimes ocorreram em Manaus, durante visitas à família materna, enquanto o militar mantinha relacionamento com a mãe da menina e frequentava a residência semanalmente.
Abuso infantil e ameaças de morte
O primeiro abuso aconteceu durante a noite, após a criança dormir na mesma cama que a mãe e o tenente. Segundo o relato, Osvaldo apalpou a menina enquanto a mãe dormia ao lado, forçou a criança a tocar sua genitália e ameaçou matá-la junto com toda a família caso contasse a alguém. A vítima afirmou que o militar dormia com uma pistola debaixo do travesseiro, aumentando o clima de terror.
"Eu fiquei congelada, eu não conseguia falar, eu não conseguia me mexer, eu não esperava isso, era uma criança inocente", desabafou a jovem em entrevista. Quando tentou contar à mãe na manhã seguinte, o tenente negou tudo e disse que a menina havia tido apenas um pesadelo.
Padrão de abuso e vulnerabilidade familiar
O homem continuou frequentando a casa e, segundo a vítima, se aproveitava sistematicamente da situação de vulnerabilidade da família. "Ninguém imagina um policial, um coronel, na posição dele, vai ter esse tipo de comportamento", lamentou a jovem.
A advogada Jadiane Kavadi, da Procuradoria da Mulher, descreveu o padrão comportamental do agressor: "Ele se achegou a ela como um príncipe, dando doces, levando para passear, dando sorvete, dando muito carinho, como todo agressor que quer se aproximar de uma vítima."
Denúncia formal e sequelas psicológicas
A denúncia formal só foi realizada em 2020, quando a vítima tinha entre 12 e 13 anos, com apoio do pai e da avó paterna. A jovem desenvolveu graves problemas de saúde mental, incluindo depressão, ansiedade, fobia social e transtorno bipolar. Relatou três tentativas de suicídio e uso contínuo de medicação controlada.
Dias antes da entrevista, havia recebido alta hospitalar após nova tentativa de tirar a própria vida. "Ele destruiu a minha vida por completo", afirmou com dor. Pelo crime, Osvaldo já havia sido denunciado pelo Ministério Público em 2025.
Segunda vítima e prisão preventiva
O tenente Osvaldo Lima da Silva está preso desde 7 de abril, quando se entregou espontaneamente à polícia após ser apontado como autor do estupro de uma mulher de 25 anos dentro de um posto de fiscalização na rodovia AM-010. A prisão ocorreu após a Justiça do Amazonas acatar pedido de prisão preventiva.
A segunda vítima conversou com a Rede Amazônica na quinta-feira (17) e relatou viver com medo constante, mesmo após a prisão do agressor. "Eu espero que a justiça seja feita, que ele não saia tão cedo da cadeia, que ele pague pelos crimes que ele cometeu. O medo é dele sair e querer fazer alguma coisa comigo ou mandar alguém fazer alguma coisa comigo", declarou.
Detalhes do segundo crime
O estupro aconteceu no dia 6 de abril, quando a vítima estava de moto com um grupo de amigos e foi abordada por policiais militares. O tenente mandou que ela entrasse sozinha na viatura sob a falsa alegação de que sua moto seria roubada.
"Ele me levou pra dentro do quartel da barreira e começou apalpar. Ele perguntou se eu tinha alguma coisa nos meus seios... ele tira o cinto dele que está com a arma e coloca em cima da cama à mostra", descreveu a mulher. "Ele tirou a roupa dele e me abaixa e coloca a mão na minha cabeça e faz eu fazer o oral nele... E isso é quando acontece o estupro", completou com detalhes angustiantes.
Investigações em andamento
A vítima fez denúncia à Procuradoria da Mulher na Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) e o caso foi registrado no 26º Distrito Integrado de Polícia (DIP). Ela prestou depoimento e passou por exames no Instituto Médico Legal (IML), com acompanhamento da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM).
A Polícia Militar do Amazonas informou que o agente continua preso no Núcleo Prisional da corporação, em cumprimento à determinação judicial. Paralelamente, foi instaurado um Inquérito Policial Militar através da Diretoria de Justiça e Disciplina da PMAM, que acompanha o andamento das investigações da Polícia Civil.
Defesa do tenente nega acusações
Em nota, a defesa do tenente negou todas as acusações e afirmou que há contradições nos depoimentos da vítima e da testemunha, que serão esclarecidas ao longo do processo. Destacou que o militar compareceu espontaneamente à delegacia, prestou depoimento e autorizou coleta de DNA, mesmo sem obrigação legal.
A defesa também informou que aguarda a inclusão de novas provas, como imagens, e argumenta que o laudo pericial apenas confirma a ocorrência de relação sexual, o que não caracterizaria estupro. Mencionou ainda que a própria vítima relatou relação consensual anterior que poderia explicar os vestígios encontrados.
Quanto à nova denúncia da jovem de 17 anos, a defesa informou que não vai se manifestar no momento. Os dois casos seguem sob investigação das autoridades competentes, enquanto as vítimas buscam justiça e tentam reconstruir suas vidas após traumas profundos.



