Região de Ribeirão Preto enfrenta média alarmante de 13 violências diárias contra mulheres
Mulheres vítimas de violência doméstica na região de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, sofreram, em média, 13 tipos de violência por dia ao longo do ano de 2025. Os dados, compilados a partir do painel federal Ligue 180, abrangem violações no ambiente doméstico e familiar, incluindo abusos físicos, psicológicos, sexuais, patrimoniais e morais. O Painel Ligue 180 é uma ferramenta interativa do Ministério das Mulheres que organiza e divulga informações sobre a violência contra mulheres em todo o Brasil, além de mapear serviços de proteção disponíveis.
Números regionais destacam gravidade da situação
No total, as cidades de Ribeirão Preto, Franca, Sertãozinho e Barretos somaram impressionantes 5.063 violações no ano passado. Ribeirão Preto liderou o índice regional com 3.380 registros, seguida por Franca com 1.094, Sertãozinho com 333 e Barretos com 256 casos. Esses números reforçam a triste realidade de que o perigo muitas vezes mora sob o mesmo teto, com a maioria absoluta das denúncias ocorrendo dentro da casa da vítima ou na residência compartilhada com o agressor.
O cenário de alerta persiste no início de 2026. Em janeiro deste ano, mês com os dados mais recentes consolidados pelo painel, Ribeirão Preto já registrou 376 violações contra a mulher, um aumento significativo em comparação com as 238 no mesmo período do ano anterior. Franca também viu um salto, de 79 para 173 casos, enquanto Sertãozinho subiu de 7 para 39. Em contrapartida, Barretos apresentou uma leve queda, passando de 13 para 8 registros.
Lei Maria da Penha completa duas décadas com desafios persistentes
Os dados regionais ganham peso extra neste ano, em que a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) completa duas décadas em vigor. As estatísticas mostram que é justamente no ambiente familiar que ocorre a maior parte das agressões. Em Ribeirão Preto, das 844 denúncias gerais feitas pelo canal no ano passado, 658 aconteceram dentro de casa. A proporção se repete nas cidades vizinhas, com Franca registrando 193 denúncias no ambiente familiar de um total de 247, Barretos com 55 de 77 e Sertãozinho com 48 de 66.
Segundo a advogada Gabriela Rodrigues, a alta no volume de denúncias não significa necessariamente que a violência aumentou de forma isolada, mas sim que a lei ajudou as mulheres a reconhecerem abusos que antes eram silenciados. "A gente tem uma crise de violência psicológica que é o início do ciclo. Antes de chegar à delegacia, a mulher precisa se conscientizar de que aquilo é violência. Acredito que há um aumento de registros em razão dessa conscientização", explica Rodrigues.
Estrutura de apoio ainda apresenta gargalos significativos
Apesar dos avanços trazidos pela Lei Maria da Penha, o rompimento definitivo do ciclo de violência ainda esbarra em falhas na estrutura de apoio após a ida à delegacia. Um levantamento divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostra que, no estado de São Paulo, 21,7% das vítimas de feminicídio em 2024 possuíam uma Medida Protetiva de Urgência (MPU) vigente no momento em que foram assassinadas, uma média superior à nacional de 13,1%.
Para Gabriela Rodrigues, a principal barreira atual é estrutural e vai além da esfera policial, envolvendo diretamente as dependências financeira e emocional que prendem a vítima ao agressor. "Nós temos exemplos de uma mãe que, para sair do contexto de violência, precisa de um trabalho, mas não consegue vaga em uma creche para o filho. A leitura do juiz poderia ser a de conceder essa vaga de creche, o que faria a medida ser muito mais eficaz", destaca a advogada.
Medidas de monitoramento e prevenção em andamento
Em nota encaminhada, a Secretaria de Segurança Pública (SSP) informou que o enfrentamento à violência contra a mulher é prioridade e destacou o uso pioneiro de tornozeleiras eletrônicas para monitorar agressores. Desde setembro de 2023, o dispositivo já foi utilizado em 712 agressores, com 189 permanecendo ativos, e possibilitou a condução à delegacia de 211 autores, dos quais 120 permaneceram presos por descumprimentos de medidas protetivas.
Além disso, a secretaria aposta em outras iniciativas, como o aplicativo SP Mulher Segura, que conecta mulheres em risco com a polícia 24 horas por dia, e as Cabines Lilás, que oferecem atendimento especializado por policiais femininas. A SSP também inaugurou 20 Casas da Mulher Paulista e criou um auxílio-aluguel que já apoia quatro mil mulheres vítimas de violência doméstica em 582 municípios.
Denúncias de violência contra a mulher podem ser feitas de forma gratuita e anônima pelo Ligue 180, que funciona 24 horas por dia, ou pelo WhatsApp (61) 9610-0180. Em casos de emergência, a Polícia Militar deve ser acionada imediatamente pelo 190.



