Presidente de abrigo para vítimas de violência doméstica é presa suspeita de tortura na Bahia
A presidente do abrigo Casa das Mulheres, localizado em Jequié, no sudoeste da Bahia, foi presa na segunda-feira (23) suspeita de praticar tortura contra uma adolescente acolhida na instituição. Elma Vieira Brito, de 51 anos, teve seu mandado de prisão temporária cumprido nas primeiras horas do dia, em uma operação que chocou a região.
Flagrante em câmeras de segurança revela agressão prolongada
Os crimes foram flagrados por câmeras de segurança instaladas no local. Nas imagens, é possível ver uma adolescente sendo puxada pelos cabelos, recebendo um tapa no rosto e sendo arrastada pelo chão por Elma Brito. Em seguida, uma outra mulher, identificada como Diná Valdelice Carvalho, segura a vítima enquanto a presidente a acorrenta. A agressão durou mais de sete minutos, segundo as investigações.
Diná Carvalho também foi presa horas depois, escondida na casa da presidente. Ela aparece em uma das imagens ajudando durante a agressão. A Polícia Civil cumpriu ainda quatro mandados de busca e apreensão no município, onde foram apreendidos celulares, computadores, documentos e um carro.
Abrigo tinha recebido certificação do governo estadual
Ironia trágica: o abrigo Casa das Mulheres havia sido reconhecido com o Selo Lilás em junho de 2025. Esta certificação do governo estadual da Bahia reconhece e certifica empresas e instituições que adotam políticas de igualdade de gênero e atuam na defesa de vítimas contra discriminação, assédio e violência sexual.
A investigação agora apura a prática dos crimes de tortura, peculato, estelionato e lavagem de capitais. A polícia informou que foram identificados indícios de irregularidades financeiras, incluindo possível desvio de recursos públicos e movimentações consideradas suspeitas.
Violência sistêmica e violação de intimidade
Além das agressões físicas, a polícia descobriu a instalação de câmeras de monitoramento em um dos quartos do abrigo, o que configura violação à intimidade das mulheres acolhidas. A Justiça autorizou o afastamento cautelar da diretoria da entidade investigada, a nomeação de interventor judicial para administração provisória da instituição e o acesso a informações da entidade.
A decisão judicial também prevê o encaminhamento das possíveis vítimas à rede de proteção social, com acompanhamento especializado. A Secretaria das Mulheres do Estado (SPM) emitiu nota repudiando qualquer tipo de violência contra as mulheres e afirmou que acompanha o caso de perto.
Defesa alega segredo de Justiça e falta de acesso a autos
A defesa de Elma Brito informou que o processo tramita sob segredo de Justiça, o que impede a divulgação de detalhes ou informações específicas sobre os autos. Os advogados afirmaram ainda que não tiveram acesso a todos os elementos do processo, o que impossibilita uma análise mais aprofundada sobre o conteúdo que fundamentou a prisão.
A reportagem tentou contato com a defesa de Diná Carvalho, mas não obteve resposta. As investigações continuam para apurar a extensão dos crimes e identificar outras possíveis vítimas.
O caso expõe uma contradição alarmante: uma instituição criada para proteger mulheres vítimas de violência transformou-se em cenário de novas violências, cometidas justamente por quem deveria oferecer acolhimento e segurança.



