Caso Gisele: Perícia Contraria Versão do Tenente-Coronel e Aponta Feminícidio
A reconstituição do crime realizada pela Corregedoria da Polícia Militar chegou a uma conclusão que desmente a versão apresentada pelo tenente-coronel Geraldo Neto sobre a morte da soldado PM Gisele Alves Santana. De acordo com o laudo pericial elaborado pelo Instituto de Criminalística, Gisele, com 1,65 metro de altura, não conseguiria alcançar a arma de fogo que estava guardada sobre um armário no quarto do casal, conforme alegado pelo marido.
Impossibilidade Física Comprovada
Os peritos constataram que, mesmo esticando-se nas pontas dos pés, uma pessoa com a altura da soldado alcançaria no máximo 1,73 metro. A base onde a arma estava apoiada ficava a 1,96 metro de altura, e o guarda-roupa tem altura total de 2,04 metros. Essa conclusão contraria frontalmente o depoimento do oficial, que afirmou que a esposa teria retirado a arma do local antes do disparo que a matou.
Gisele foi encontrada caída no chão, com um tiro na cabeça, na sala do apartamento onde vivia com o marido no Centro de São Paulo, no dia 18 de fevereiro. Ela chegou a ser socorrida, mas sua morte foi constatada no hospital.
Prisão Preventiva e Acusações
O tenente-coronel Geraldo Neto foi preso nesta quarta-feira (18), após ter sua prisão preventiva decretada pela Justiça Militar. Ele é acusado de feminicídio e fraude processual. Na simulação realizada no apartamento, Neto relatou que, na manhã do crime, comunicou à esposa a intenção de se separar, houve discussão, e Gisele o empurrou para fora do quarto, fechando a porta.
O oficial disse que foi tomar banho e, cerca de um minuto depois, ouviu um barulho alto. Ao abrir parcialmente a porta do banheiro, viu Gisele caída no chão da sala, com sangramento na cabeça.
Mensagens Revelam Humilhação e Violência Psicológica
A Corregedoria da PM conseguiu extrair do celular do tenente-coronel trocas de mensagens entre ele e Gisele que revelam episódios de humilhação e violência psicológica. Nas conversas, a soldado afirma que era submetida a piadas e comportamento "babaca" por parte do marido, até no ambiente de trabalho.
Em um dos diálogos, ela escreve: "Não dá para entender. Você pediu para eu não ir embora. Eu fico e você continua igual, até pior, com seu tratamento. Falando coisas para me humilhar, para me provocar". E acrescenta: "Se você quer separar, vamos separar. Mas, se você continuar, vai ter que mudar seu comportamento estúpido, ignorante, intolerante e sem escrúpulos".
Segundo a investigação, Geraldo Neto também fez declarações machistas contra a esposa, como: "Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. E não na rua, caçando assunto. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho".
Contexto de Submissão e Hierarquia
Para a Corregedoria da PM, os diálogos revelam uma "concepção de relacionamento baseada em submissão e hierarquia no âmbito doméstico". A investigação afirma que "tais manifestações não se apresentam como meros desentendimentos ocasionais entre um casal, mas sim como indícios de violência psicológica reiterada".
Os investigadores destacam que "antes mesmo do evento fatal investigado, a Sd PM Gisele já estaria submetida a um ambiente relacional marcado por comportamentos agressivos e potencialmente violentos".
Laudos Apontam para Feminícidio
Vários laudos periciais foram determinantes para a conclusão da investigação:
- Necroscópico: Concluiu que Gisele tinha marcas de dedos no pescoço e desmaiou antes de ser baleada.
- Trajetória do tiro: Apontou que o disparo foi dado de baixo para cima, com o cano encostado na cabeça.
- Toxicológico: Não encontrou resquícios de álcool ou drogas, descartando a possibilidade de ela estar sob influência.
- Residuográfico: Não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem nas de Geraldo.
- De local de crime: Gisele foi encontrada caída e segurando a arma, o que é incomum em casos de suicídio.
Outros Indícios Suspeitos
A investigação também identificou vários pontos que chamaram a atenção:
- O coronel telefonou para a PM apenas 29 minutos após uma vizinha escutar um tiro.
- Ele havia dito que tinha tomado banho antes do disparo, mas quando socorristas chegaram, o encontraram com o corpo seco.
- Somente após ligar para um desembargador amigo, que foi à residência, é que Geraldo foi se banhar.
- Exames indicaram a presença de sangue de Gisele no box do banheiro e em outros cômodos.
- Três policiais militares mulheres foram ao apartamento limpar o imóvel após a perícia.
Competência Judicial e Próximos Passos
A defesa do tenente-coronel alega que a Justiça Militar é incompetente para analisar o caso, já que crimes dolosos contra a vida, como o feminicídio, não são crimes militares. O mais provável é que o processo siga somente com a Justiça comum, onde Geraldo poderá ser julgado no Tribunal do Júri.
O Tribunal de Justiça Militar informou que a prisão preventiva foi decretada com base na garantia da ordem pública, na conveniência da instrução criminal e na necessidade de preservação da hierarquia e disciplina militares. O magistrado destacou o risco de interferência nas investigações e a gravidade concreta dos fatos apurados.
Geraldo Neto seguirá preso no 8º Distrito Policial, no Brás, onde será interrogado e passará por exames de corpo de delito. Após isso, irá para o Presídio Militar Romão Gomes, na Zona Norte de São Paulo. A Promotoria pediu ainda que, numa eventual condenação, a Justiça fixe indenização mínima de R$ 100 mil para o oficial pagar aos familiares da vítima.



