Tenente-coronel da PM é acusado de feminicídio após revelação de mensagens com termos como 'macho alfa' e 'fêmea beta'
O Ministério Público de São Paulo apresentou uma denúncia detalhada contra o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, acusando-o do feminicídio qualificado de sua esposa, a soldado Gisele Alves Santana. O caso, que inicialmente foi registrado como suicídio, ganhou nova dimensão após a descoberta de mensagens trocadas entre o casal, revelando uma dinâmica de relacionamento marcada por violência psicológica, controle e dominação.
Mensagens expõem hierarquia abusiva no casamento
Entre as provas reunidas pelos promotores, destacam-se mensagens de texto onde o militar descreve sua visão do casamento. Em uma delas, ele afirma: "Eu te trato como todo homem macho alfa trata sua esposa – com amor, carinho, atenção e autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa. Como toda mulher casada deve ser". Em outra comunicação, o tenente-coronel se autodenomina "príncipe e soberano", reforçando, segundo a acusação, uma postura de dominação sobre a vítima.
Dias antes de sua morte, Gisele relatou episódios de agressão em mensagens, escrevendo: "Você não me respeita; não sabe conversar; ontem enfiou a mão na minha cara". A denúncia aponta que o crime teria sido motivado pela intenção da vítima de se separar, após ela buscar ajuda dos pais e afirmar que não suportava mais a relação.
Crime ocorreu com tentativa de simular suicídio
De acordo com o Ministério Público, o feminicídio ocorreu na manhã de 18 de fevereiro, por volta das 7h28, no apartamento onde o casal vivia. Durante uma discussão, o oficial teria segurado a vítima pela cabeça e efetuado um disparo de arma de fogo contra o lado direito do crânio. Após o crime, ele teria manipulado a cena para simular um suicídio, com ações como:
- Reposicionar o corpo da vítima
- Colocar a arma na mão de Gisele
- Ocultar vestígios do crime
- Lavar as mãos para dificultar a perícia
Outro elemento crucial destacado na denúncia é a demora no acionamento do socorro. Os promotores afirmam que o pedido de ajuda teria sido feito cerca de 30 minutos após o disparo, período em que o local dos fatos teria sido alterado para encobrir o crime.
Histórico de violência e isolamento da vítima
A acusação descreve um longo histórico de violência no relacionamento, incluindo episódios de agressões físicas, abusos psicológicos e humilhações constantes. O Ministério Público aponta ainda que o militar tentou isolar Gisele de familiares e amigos, além de relatar exigências de relações sexuais em troca do pagamento de despesas domésticas.
Para os investigadores, o tenente-coronel pode ter tentado interferir na investigação, utilizando sua posição hierárquica para influenciar testemunhas e descumprindo procedimentos básicos de preservação da cena do crime. Diante dos fortes indícios, a Justiça determinou a prisão preventiva do oficial e seu afastamento das funções na Polícia Militar.
Defesa nega acusações e caso segue para júri
Em nota, a defesa de Geraldo Leite Rosa Neto nega todas as acusações, sustentando que não houve feminicídio nem fraude processual. Os advogados afirmam que a policial tirou a própria vida "independentemente da conclusão do inquérito policial". O processo segue em andamento e deverá ser julgado pelo Tribunal do Júri, onde serão analisadas todas as provas e testemunhas apresentadas pelas partes.
O caso, que ganhou repercussão nacional após ser divulgado pela CNN Brasil, serve como um alerta sobre a gravidade da violência doméstica e a importância de investigações minuciosas em situações inicialmente classificadas como suicídio. A sociedade aguarda com atenção o desfecho judicial deste trágico episódio que tirou a vida de uma servidora pública e expôs as entranhas de um relacionamento marcado pelo abuso e pela dominação.



