Mapa do Feminicídio em SC revela perfil das vítimas e 'corredores' de violência
Mapa do Feminicídio em SC revela perfil das vítimas e corredores

Estudo revela perfil das vítimas de feminicídio em Santa Catarina

Santa Catarina registrou 334 feminicídios entre 2020 e 2024, segundo o Mapa do Feminicídio divulgado pelo Ministério Público estadual. A iniciativa, que cruzou e organizou dados oficiais, apresenta análises detalhadas sobre como esse tipo de violência se manifesta no estado, revelando padrões preocupantes e fatores de risco específicos.

Vínculo afetivo como fator determinante

Os dados apontam um forte vínculo com relações afetivas: 71% dos casos são classificados como feminicídios íntimos, cometidos por companheiros ou ex-companheiros. Em 40,8% das ocorrências, os crimes foram praticados pelo companheiro ou cônjuge, enquanto em 23,1% foram executados por ex-companheiros ou ex-cônjuges.

A pesquisa demonstra que, na maior parte dos feminicídios íntimos, a ruptura do relacionamento representa o ponto crítico de escalada letal, com 45,8% dos casos ocorrendo após o término da relação.

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Perfil socioeconômico das vítimas

O estudo identificou características marcantes entre as mulheres assassinadas:

  • 65% eram mães
  • 79,7% tinham entre 12 e 49 anos, com picos entre 18-24 e 35-39 anos
  • 97,6% eram brasileiras e 2% estrangeiras
  • 31,9% possuíam ensino fundamental incompleto
  • 71,5% não tinham vínculo empregatício formal
  • 23,4% eram "do lar"

Esses dados evidenciam barreiras significativas no acesso à justiça e aos mecanismos de proteção, além de destacar a dependência econômica e a precarização laboral como fatores relevantes.

Circunstâncias dos crimes

A análise das ocorrências revelou padrões específicos sobre como os feminicídios acontecem:

  • 76,4% dos crimes ocorrem em casa
  • O uso de arma branca (47,7%) é mais que o dobro do uso de arma de fogo (22,9%)
  • 56,4% dos casos acontecem à noite ou madrugada
  • 41,1% ocorrem especialmente entre a noite de sexta-feira e a madrugada de segunda

Corredores do feminicídio em Santa Catarina

A análise territorial permitiu identificar o que o estudo denomina de "corredores do fenômeno feminicida" no estado. Um desses corredores está localizado no Oeste catarinense, abrangendo municípios entre Xanxerê e São Miguel do Oeste, região que concentra as maiores taxas de letalidade feminina no período analisado.

Outro corredor relevante se estende entre Lages e Curitibanos, formando uma faixa intermediária do estado que apresenta indicadores significativamente superiores aos registrados no litoral e nos grandes centros urbanos.

Histórico prévio de violência

Dado especialmente preocupante apontado pelo Mapa é que 68,9% das vítimas tinham histórico prévio de violência, ainda que nem sempre registrado nos sistemas de proteção. Em muitos casos, segundo o Ministério Público, essa trajetória de agressões não chegou a se converter em registros formais nos serviços de saúde, assistência social ou segurança pública.

Durante o lançamento do Mapa, a promotora de justiça Chimelly Louise de Resenes Marcon, responsável pela análise dos dados, comentou que a situação demonstra falhas de acesso, informação e acolhimento. "A pergunta que os dados nos devolvem é: onde estavam essas vítimas antes do desfecho letal? Onde essa história de violência permaneceu silenciada ou invisível ao longo do caminho?", questionou a promotora.

Tentativas de feminicídio em 2026

Levantamento divulgado pela NSC TV na última semana mostrou que, no primeiro trimestre de 2026, o estado já registrou 42 tentativas de feminicídio até 13 de março. Esse valor equivale a uma tentativa de matar uma mulher a cada 40 horas.

As cidades que mais tiveram casos estão na região Norte: São Francisco do Sul e Joinville, com três tentativas de feminicídio cada. Santa Catarina também registrou 52 feminicídios em 2025 e 10 em 2026, segundo dados complementares.

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Medidas protetivas e acesso à justiça

O estudo revelou que 73,2% das vítimas nunca tiveram acesso à medida protetiva, enquanto apenas 19,7% solicitaram a proteção judiciária em algum momento. Esses números reforçam as dificuldades enfrentadas pelas mulheres em situação de violência para acessar mecanismos legais de proteção.

O feminicídio está previsto no artigo 121-A do Código Penal brasileiro, com entendimento que começou a valer a partir da lei número 13.104/2015. O Mapa do Feminicídio representa um esforço importante para dimensionar o problema e orientar políticas públicas mais eficazes de prevenção e combate à violência contra as mulheres em Santa Catarina.