Lutadora de jiu-jítsu denuncia abusos do treinador Melqui Galvão
Lutadora denuncia abusos do treinador Melqui Galvão

A lutadora de jiu-jítsu Brenda Larissa, de 27 anos, foi a primeira a se manifestar publicamente sobre as denúncias de abusos sexuais e morais contra o treinador Melqui Galvão. Ele está preso temporariamente por 30 dias desde 27 de abril, em Manaus (AM), sob acusação de crimes sexuais contra alunas menores de idade. As suspeitas incluem estupro de vulnerável, importunação sexual, ameaça e invasão de dispositivo eletrônico. O caso começou a ser investigado após uma aluna de 17 anos denunciar o treinador em São Paulo. Melqui nega as acusações.

O relato de Brenda Larissa

Brenda publicou um vídeo de 20 minutos no Instagram detalhando seu sofrimento. Segundo ela, a "tortura de 14 anos" começou quando tinha apenas 12 anos e entrou na academia de Galvão na capital amazonense. Por passar por dificuldades, andando uma hora diariamente até o treino e às vezes passando fome, ela aceitou ajuda financeira, alimentação e vestuário de Melqui. Ele também conseguiu uma bolsa de estudos em um colégio particular onde os próprios filhos estudavam e prometeu sucesso na carreira e patrocínio.

"Ele falou que eu podia mudar a vida da minha família. E minha mãe também viu que aquilo ali era ambiente familiar, onde os filhos dele também treinavam. Mas chegou um dia em que [Melqui] disse que eu teria que pagar por tudo. Até que começaram os abusos e eu paguei da pior forma possível. Ele abusou de mim e esses abusos continuaram durante um bom tempo", afirmou.

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Descoberta de outras vítimas

Aos 16 anos, Brenda descobriu que outras alunas da academia também sofriam abusos de Galvão. "Na minha cabeça eu achava que era só eu que vivia aquele inferno, mas não era. Outras também estavam vivendo." A lutadora, que tem 74 vitórias e 29 derrotas na carreira, disse que a esposa de Galvão soube dos abusos e viu as compras que ele fazia para Brenda. O treinador teria armado um plano para ela namorar um menino da academia, para disfarçar e a esposa não descobrir que ela também era abusada.

Projeto nos Estados Unidos e controle contínuo

Brenda contou que Melqui Galvão criou um projeto nos Estados Unidos e convidou alguns atletas para irem com ele. Ela foi chamada, assim como seu namorado na época. No entanto, não conseguiu o visto de permanência e apenas lutou o Mundial, sendo campeã na faixa azul, voltando ao Brasil e se estabelecendo em São Paulo com o namorado. Nesse período, Galvão ficou um pouco distante, mas o assédio nunca acabou. "Ele nunca deixou de me controlar. Sempre mantinha contato comigo e me coagia, mandando mensagens. Por eu já saber quem ele era, tudo o que havia passado, ele sabia que eu ia fazer tudo o que ele queria."

Quando retornou a Manaus durante a pandemia para ver a mãe doente, Brenda afirma que voltou a sofrer pressão psicológica e ele forçou que ela continuasse treinando com ele. Ela ficou até que Galvão montou outra academia em Jundiaí (SP), para onde foi com o namorado. Em 2023, com a acusação de doping contra o filho de Melqui Galvão, Mica Galvão, o treinador se afastou dos treinos, deixando os alunos sem instrução. Foi quando ela e o namorado deixaram a academia. Mesmo assim, Melqui continuava enviando mensagens pressionando e até sugerindo que ela terminasse com o namorado e voltasse a treinar com ele. "Ele continuava me mandando mensagens, fazendo propostas, tentando me convencer a voltar. Era torturador. Até antes de ser preso, ele ainda curtia minhas coisas. Foram 14 anos de tortura física e mental", relata.

Encorajamento a outras vítimas

No fim do vídeo, Brenda afirma que decidiu se pronunciar para dar força a outras meninas que também tenham sido vítimas do treinador, como sua irmã. "Estou fazendo esse vídeo por mim e pela minha irmã. Ele estuprou ela também, assim como fez comigo. Também estou fazendo esse vídeo para encorajar outras meninas a denunciarem. Quero dizer que sinto as dores de vocês. Foi horrível ter de ouvir o depoimento da minha irmã e para ela foi horrível ouvir o meu." Por fim, ela revelou que sentiu medo durante todo o tempo que ficou sob controle do treinador. "Eu estava com muito medo. Foram 14 anos de muito medo. E quero dizer a vocês que esse medo acabou a partir do momento que eu botei o meu Deus acima desse medo. Eu quero que [o vídeo] chegue até elas, para que também possam fazer a denúncia e para que a justiça seja feita."

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Defesa de Melqui Galvão

Em nota divulgada pelo advogado Átila Machado no último sábado (2), o treinador Melqui Galvão negou ter cometido os crimes. "A defesa reitera que Melquisedeque Galvão permanece à disposição das autoridades competentes, confia no regular funcionamento das instituições e aguarda a completa elucidação dos fatos." A defesa afirma que Melqui Galvão tem "histórico funcional ilibado, tendo atuado durante anos em atividades de segurança pública, capacitação, defesa pessoal e treinamento, sempre com dedicação ao serviço público e ao cumprimento das atribuições inerentes ao cargo".