Feminicídio seguido de suicídio abala Zona Sul do Recife
Um trágico caso de feminicídio seguido de suicídio chocou a capital pernambucana no último domingo (22). O empresário Silvio Souza Silva, de 48 anos, conhecido artisticamente como Dom Silver, assassinou sua ex-companheira, a estudante de medicina Isabel Cristina Oliveira dos Santos, de apenas 22 anos, e em seguida tirou a própria vida dentro de um apartamento no condomínio Le Parc, localizado no bairro da Imbiribeira, na Zona Sul do Recife.
Histórico de violência e liberação após fiança
O criminoso já possuía um histórico preocupante de violência contra a mesma vítima. Em 25 de janeiro deste ano, Silvio foi preso em flagrante por ameaça e violência doméstica contra Isabel. Ele invadiu o apartamento da jovem, alegou ter ingerido comprimidos e ameaçou morrer na porta caso não fosse recebido. Após a vítima abrir a porta, uma discussão se iniciou, culminando em agressões físicas com empurrões e puxões de cabelo, além de ameaças verbais.
A intervenção de uma amiga de Isabel impediu que as agressões continuassem, levando à chegada da polícia e à prisão de Silvio. Entretanto, em um triste reflexo do sistema, o empresário foi autuado em flagrante e liberado poucas horas depois, após pagar uma fiança no valor de R$ 16.210. Na ocasião, a vítima optou por não solicitar uma medida protetiva de urgência.
Perseguição e novas ameaças após a primeira agressão
O assédio e a violência não cessaram com a liberação. No dia seguinte à agressão de janeiro, Isabel viajou para São Paulo, e Silvio embarcou no mesmo voo, em uma clara demonstração de perseguição. "Segundo a declarante, não fazia sentido que ele prosseguisse com a viagem", registra o boletim de ocorrência de fevereiro, quando a vítima voltou a prestar queixa.
O empresário utilizou diversas estratégias para tentar forçar a retomada do relacionamento. Ele chegou a procurar os pais de uma amiga de faculdade de Isabel, pedindo intercessão. Como estava bloqueado em todas as redes sociais, realizava transferências PIX de pequenos valores para a ex-companheira, inserindo mensagens no campo de descrição. As ameaças escalaram, incluindo ameaças de morte pelo WhatsApp em outubro de 2025 e o arrombamento da porta dos fundos do apartamento da vítima em novembro.
O trágico desfecho no condomínio Le Parc
O relacionamento conturbado, que começou quando Isabel tinha apenas 16 anos e Silvio 42, e que gerou uma filha de 3 anos, chegou ao fim de forma brutal. Testemunhas relataram uma discussão entre o ex-casal no dia do crime. Silvio saiu do condomínio e retornou posteriormente, ficando a sós com Isabel no apartamento.
Por volta das 22h, disparos de um revólver calibre 38 ecoaram. A irmã de Isabel, a namorada dela e a filha do casal, de 3 anos, foram as primeiras a entrar no local e encontrar os corpos. Ambos apresentavam ferimentos na cabeça provocados pelos tiros. A arma e munições foram apreendidas no local. O caso foi registrado como feminicídio seguido de suicídio.
Quem eram a vítima e o agressor
Isabel Cristina cursava o 4º período de medicina na Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) e tinha toda uma vida pela frente. Silvio Souza Silva era diretor-geral da empresa Aluvid Esquadrias de Alumínio, no Recife, e cantor de brega romântico. Nas redes sociais, onde usava o nome Dom Silver, acumulava mais de 600 mil seguidores.
Segundo os boletins de ocorrência, ele usava sua influência e conhecimento para ameaçar a carreira da vítima, afirmando que iria abrir um processo criminal para impedir que ela conseguisse seu registro no Conselho Regional de Medicina (CRM).
Falhas no sistema e alerta para a violência doméstica
O caso expõe graves falhas. A vítima havia pedido uma medida protetiva de urgência em fevereiro e deveria retornar à Delegacia da Mulher na terça-feira (24), mas foi assassinada dois dias antes. A administração do condomínio Le Parc emitiu uma nota afirmando que não tinha conhecimento de qualquer medida protetiva que restringisse o acesso de Silvio, cujo cadastro estava regular.
Este feminicídio serve como um alerta sombrio sobre a persistência da violência doméstica e a importância de mecanismos eficazes de proteção. No Recife, mulheres vítimas de violência podem buscar ajuda em locais como o Centro de Referência Clarice Lispector (24h) e através do Plantão WhatsApp (81) 99488-6138. Denúncias podem ser feitas pelos números 180 (Central de Atendimento à Mulher), 190 (Polícia Militar) ou (81) 3421-9595 (Disque-Denúncia da Polícia Civil no Grande Recife).



