Feminicídio no Brasil: Justiça registra 32 casos diários em 2025, aumento de 16%
Feminicídio: 32 casos diários na Justiça em 2025, alta de 16%

Feminicídio no Brasil: Justiça registra 32 casos diários em 2025, aumento alarmante de 16%

Os tribunais brasileiros enfrentam um cenário crítico de violência contra mulheres. Em 2025, o Poder Judiciário recebeu uma média de 32 casos de feminicídio e tentativa de feminicídio por dia, totalizando 11.883 novos registros ao longo do ano. Esse número representa um aumento de 16% em relação a 2024, conforme levantamento do Conselho Nacional de Justiça, evidenciando uma tendência preocupante de crescimento anual.

História de uma sobrevivente: trauma e superação

A assistente administrativa Flávia Araújo, de Niterói, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, é uma das sobreviventes que decidiu mostrar o rosto e contar sua história. Há quase três anos, ela foi atropelada pelo ex-namorado após se recusar a subir na garupa de sua moto. “Passei a ter crise de pânico, ansiedade, tinha que tomar remédio para dormir, remédio para acordar”, relata Flávia, descrevendo os impactos psicológicos do ataque.

As imagens de segurança capturaram o momento em que Flávia, após se afastar caminhando, foi arremessada contra um muro. “Naquele momento, eu olhei para o céu e me despedi da vida porque eu achei que não ia ter ajuda. Minha voz não saía, eu não conseguia me levantar, não conseguia me mexer”, conta ela, que fraturou uma vértebra lombar e entrou em choque. Sua vida foi salva por um policial, dono de uma casa próxima, que testemunhou o crime pelas câmeras e ajudou a prender o agressor em flagrante.

Medidas protetivas: eficácia e desafios na aplicação

Diante desse cenário, especialistas destacam a importância das medidas protetivas de urgência, que obrigam agressores a manter distância das vítimas. Em 2025, a Justiça concedeu mais de 620 mil pedidos, aproximadamente 70 por hora. A defensora pública Thais dos Santos Lima ressalta: “A mulher que busca a medida protetiva no início desse relacionamento violento, ela pode ser salva e não ser mais uma vítima de feminicídio”.

Embora o tempo médio para obtenção da medida tenha caído de 16 dias em 2020 para quatro dias em 2025, ainda é o dobro da meta de 48 horas estabelecida pela Lei Maria da Penha. A juíza Renata Gil enfatiza que a sociedade precisa se envolver: “Os condomínios dos prédios precisam ter mecanismos de denúncia, é obrigação dos síndicos denunciar. Existe campanha para que todos os estabelecimentos comerciais, bares, restaurantes ajudem nesse processo”.

Consequências e reflexões sobre a violência

Flávia Araújo serve como exemplo de resiliência. Seu agressor foi condenado a nove anos de prisão em julho de 2025, mas as marcas emocionais persistem. “Todos os dias eu sofro, eu choro, eu penso, mas não deixo de viver”, afirma ela. Thais dos Santos Lima questiona: “A cada ano, o Brasil vem batendo recorde de casos de feminicídio. Então, a gente começa a perceber o que falta a gente fazer”.

Os dados revelam que muitas mulheres não têm a mesma sorte de Flávia, especialmente em situações de violência doméstica entre quatro paredes, onde a fuga pode ser impossível. A combinação de legislação, aplicação eficiente de medidas protetivas e engajamento social é vista como crucial para reverter essa tendência alarmante e salvar vidas.