Delegado réu por violência doméstica participa de reinauguração de DDM em São Paulo
Dois anos após aparecer em um vídeo ameaçando a então esposa e afirmando que a mataria com tiros no rosto, o delegado licenciado e deputado federal Carlos Alberto da Cunha (PP-SP) esteve presente, na quinta-feira (12), na reinauguração da 2ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) e do 16º Distrito Policial (DP), na capital paulista. O próprio parlamentar divulgou sua participação nas redes sociais, o que gerou fortes críticas de entidades que atuam na defesa de mulheres vítimas de violência.
Réu por agressão e ameaças de morte
Conhecido como Delegado Da Cunha, ele responde na Justiça por violência doméstica após agredir a nutricionista Betina Grusiecki em outubro de 2023, que na época era sua esposa, em Santos, no litoral de São Paulo. Ela o acusa de bater sua cabeça na parede, tentar esganá-la até desmaiar e fazer ameaças de morte durante uma discussão no apartamento onde moravam. O vídeo do episódio, gravado pela própria Betina, foi divulgado em 2024 pelo programa Fantástico.
Nas imagens, o delegado diz: “Pode parar. Pode parar, senão vou te matar aqui.” Quando Betina pergunta “Vai me matar?”, ele responde “Matar”, repetindo a palavra várias vezes. Em outro momento, ela pede ajuda: “Me solta. Chama a polícia. Sai.” Ele insiste: “Sai, sua vaca. Vou te encher tua cara de tiro.” O caso ainda não foi julgado, e ele responde em liberdade por lesão corporal, ameaça, dano e violência psicológica.
Entidades classificam presença como 'escárnio' e 'retrocesso'
A participação de Da Cunha no evento foi duramente criticada por especialistas da área. Samira Bueno, diretora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), afirmou que é “um escárnio” que o governo permita que um réu por violência contra mulher reinaugure uma DDM. Sueli Amoedo, advogada do Projeto Justiceiras, disse que a presença dele demonstra o quanto o Estado não se preocupa com a vida das mulheres, chamando o gesto de “retrocesso”.
A advogada Maria Gabriela Manssur, que representa Betina, afirmou que as medidas protetivas continuam válidas e que o processo está na fase final, faltando apenas a sentença. “Confiantes de que o autor será responsabilizado”, declarou. Sua cliente, que tem medida protetiva contra Da Cunha, não quis falar com a equipe de reportagem.
Secretário da Segurança Pública posa com o deputado
Nas redes sociais, Da Cunha publicou fotos e vídeos ao lado do secretário da Segurança Pública (SSP), Osvaldo Nico Gonçalves, que repostou a publicação, e também posou com delegadas que atuam na DDM. Durante o evento, ele elogiou publicamente Nico, o delegado-geral, Artur Dian, e uma delegada.
A Secretaria da Segurança Pública informou por nota que a cerimônia de reinauguração da DDM e do DP era pública e seguiu “regras de cerimonial e precedência aplicáveis a atos oficiais”. E que o secretário Nico apenas cumprimentou as autoridades presentes, entre elas “o deputado mencionado”, que está “afastado de suas funções” policiais “para exercício do mandato parlamentar”.
Defesa alega 'certeza de inocência' e compromisso com a Polícia Civil
A defesa do parlamentar, representada pelo advogado Átila Machado, afirmou que o processo criminal por agressão contra a ex-esposa corre em segredo de Justiça e ainda não foi julgado. E que a presença de Da Cunha na DDM reforça sua “certeza de inocência” e seu compromisso com a Polícia Civil. Também por nota, a assessoria de Da Cunha informou que “todos os procedimentos administrativos que apuravam possíveis infrações administrativas” supostamente cometidas pelo delegado “foram arquivados” pela Corregedoria da Polícia Civil.
Histórico de polêmicas e influência digital
Na esfera criminal, a Justiça arquivou em 2024 o processo em que ele era réu por abuso de autoridade e constrangimento ilegal após encenar, em 2020, o estouro de um cativeiro para publicar nas redes sociais. Da Cunha obrigou a vítima de sequestro e o criminoso a voltarem ao local para gravar o vídeo e depois divulgou as imagens como se tivesse prendido um suposto chefe do Primeiro Comando da Capital (PCC). Na época, admitiu a encenação. No acordo judicial, pagou fiança de pouco mais de R$ 14 mil para encerrar e arquivar o caso.
Da Cunha acumula 1,8 milhão de seguidores no Instagram e mais de 3,5 milhões no YouTube, onde ganhou fama como delegado influenciador digital. Em 2022, o Conselho da Polícia Civil recomendou sua demissão por crimes funcionais de abuso de autoridade e constrangimento ilegal, decisão que cabe atualmente ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que não se manifestou. Em 2021, após declarar que “há ratos na polícia”, Da Cunha foi afastado e teve distintivo e armas recolhidos. No mesmo ano, pediu licença não remunerada e, em 2022, foi eleito deputado federal com mais de 180 mil votos. Em julho de 2023, informou que teve o distintivo e a pistola devolvidos, por decisão do delegado-geral Arthur Dian.



