Delegacia de Defesa da Mulher de Piracicaba enfrenta demanda crescente com três medidas protetivas por dia
A Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Piracicaba, no interior de São Paulo, registrou um total de 1,1 mil pedidos de medida protetiva apenas no ano de 2025. Esse número impressionante equivale a aproximadamente três solicitações por dia, revelando a dimensão da violência contra as mulheres na região. A informação foi divulgada pela delegada titular da unidade, Olívia dos Santos Fonseca, durante evento para assinatura do Pacto Nacional Brasil Contra o Feminicídio, realizado na Câmara Municipal de Piracicaba nesta quarta-feira (18).
Unidade policial está "sobrecarregada" segundo delegada
Em declaração contundente, a delegada Olívia dos Santos Fonseca admitiu que a DDM de Piracicaba está "sobrecarregada" devido ao grande volume de trabalho. "Temos um grande fluxo na DDM de Piracicaba. Imaginem só: 1,1 mil pedidos de medida registrados, fora os pedidos de prisão, os pedidos de preventiva, os pedidos de busca e apreensão, os crimes sexuais. Então, é uma unidade sobrecarregada. É uma unidade que precisa, sim, de uma atenção", afirmou a delegada durante o evento.
O g1 solicitou posicionamento oficial para a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) sobre a situação, mas ainda aguarda retorno da pasta. A reportagem será atualizada assim que obtiver resposta das autoridades estaduais.
Problemas estruturais comprometem atendimento adequado
Além da sobrecarga de trabalho, a delegada apontou graves problemas estruturais na sede atual da DDM, localizada na Rua Alferes de José Caetano, 1.018, no Centro de Piracicaba. "Infelizmente, hoje em dia a gente trabalha em um prédio que não tem acessibilidade, que não tem espaço para convênio com faculdades de psicologia, com faculdades de assistência social, porque é importante esses profissionais dentro da DDM", lamentou Olívia.
A delegada relembrou o projeto de construção de um novo prédio para a delegacia, no cruzamento da Avenida Professor Alberto Vollet Sachs com a Rua Santa Catarina, no bairro Nova América. "Esperamos com muita ansiedade a construção do nosso prédio da DDM, a cargo do governo estadual. Nós temos um terreno doado, nós temos um projeto concluído e precisamos de um orçamento para construir um prédio que seja digno a atender as mulheres de Piracicaba que tanto precisam desse atendimento", declarou.
A doação do terreno foi oficializada em abril de 2025 e, em agosto do mesmo ano, a Polícia Civil informou que prepara a licitação para a obra e aguarda liberação de verba. No entanto, não há previsão de prazo para entrega do novo prédio, o que mantém as mulheres de Piracicaba em situação de vulnerabilidade.
Delegada sofre ataques misóginos e defende criminalização da misoginia
Durante o evento, a delegada Olívia dos Santos Fonseca também cobrou a criminalização da misoginia e ressaltou que, atualmente, na internet, movimentos têm feito as pessoas se sentirem no direito de atacar as mulheres. A própria delegada revelou que foi alvo de ataques devido ao cargo que ocupa.
"É como se não fosse direito nosso ocupar o espaço. Como se não fosse direito de a mulher negra, a mulher trans, a mulher sis, a mulher ocupar o espaço na política. Nós precisamos de mulheres para fazer política para mulheres", comentou Olívia, destacando como essas situações de violência simbólica também se estendem para a esfera política.
Números revelam aumento preocupante de medidas concedidas
De acordo com dados do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP), do total de medidas solicitadas em Piracicaba no ano passado, 953 foram concedidas, representando um aumento de 22,5% em comparação com 2024. Os números da região de Piracicaba mostram uma realidade alarmante:
- Piracicaba: 778 medidas em 2024 e 953 em 2025
- Limeira: 671 medidas em 2024 e 767 em 2025
- Santa Bárbara d'Oeste: 267 medidas em 2024 e 378 em 2025
- Nova Odessa: 142 medidas em 2024 e 129 em 2025
- Cosmópolis: 154 medidas em 2024 e 49 em 2025
- Capivari: 188 medidas em 2024 e 176 em 2025
- São Pedro: 133 medidas em 2024 e 162 em 2025
- Rio das Pedras: 46 medidas em 2024 e 78 em 2025
- Cordeirópolis: 63 medidas em 2024 e 81 em 2025
Pacto Nacional contra o Feminicídio busca fortalecer políticas públicas
O Pacto Nacional contra o Feminicídio foi assinado com a participação da ministra das Mulheres, Márcia Lopes. O documento cobra celeridade nos processos relacionados à violência contra mulheres e reforça medidas importantes como:
- Funcionamento contínuo das delegacias especializadas
- Ampliação das políticas municipais de proteção à mulher
- Orientação para uso adequado do Ligue 180
- Fortalecimento da rede de atendimento às vítimas
A situação da DDM de Piracicaba ilustra os desafios enfrentados pelas delegacias especializadas em todo o país, que precisam lidar com demanda crescente enquanto enfrentam limitações estruturais e orçamentárias. A delegada Olívia dos Santos Fonseca se tornou voz importante na defesa de melhores condições de trabalho e atendimento às mulheres vítimas de violência na região.



