Comandante da Guarda de Vitória, símbolo no combate ao feminicídio, é vítima do crime que combatia
Comandante de Vitória, símbolo contra feminicídio, é vítima do crime

Comandante que liderava combate ao feminicídio em Vitória é assassinada pelo próprio namorado

A comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, foi morta com cinco tiros na cabeça pelo namorado, o policial rodoviário federal Diego Oliveira de Souza, em um trágico caso de feminicídio que interrompeu um período histórico de 652 dias sem ocorrências desse tipo de crime na capital capixaba. Dayse era justamente a principal voz nas políticas públicas de enfrentamento à violência doméstica e familiar que haviam garantido essa marca significativa.

Líder na prevenção se torna vítima

Segundo o secretário de Segurança Urbana de Vitória, Amarílio Boni, Dayse Barbosa contribuiu diretamente para que a capital estivesse há quase dois anos sem registrar feminicídios. "Vitória estava há 652 dias sem feminicídios até ontem (domingo). A gente estava trabalhando nesse sentido com o objetivo de tentar motivar as pessoas a delatar os agressores. Infelizmente, ela não conseguiu poder salvar a própria vida", afirmou o secretário com pesar.

O prefeito Lorenzo Pazolini destacou que o período sem feminicídios foi resultado direto das políticas públicas coordenadas pela própria comandante. "Nós temos lutado muito contra a violência doméstica familiar. A Dayse simbolizava isso e agora simboliza eternamente. Nós atingimos mais de 650 dias sem feminicídio exatamente pelas políticas públicas que ela coordenava. E, infelizmente, ela se torna vítima dessa violência", lamentou o prefeito em entrevista ao Bom Dia ES.

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Crime premeditado interrompe marca histórica

O assassinato ocorreu na casa onde Dayse morava com o pai e a filha de 8 anos, no bairro Caratoíra, em Vitória. Segundo investigações, o crime foi premeditado: na mochila de Diego, a polícia encontrou um canivete, uma faca, um vidro de álcool, carregadores de munição, alicate e um isqueiro. "A circunstância é que ele foi com o intuito de cometer o feminicídio. Ele levou materiais para entrar na residência e subir na marquise. Tudo indica que ele a pegou deitada, dormindo, e efetuou os disparos sem possibilidade de reação", explicou o secretário Amarílio Boni.

O pai da vítima, Carlos Roberto Teixeira, estava em casa no momento do crime e relatou que acordou ao ouvir o primeiro disparo. "Não deu tempo de nada, ele entrou atirando. No primeiro tiro eu já acordei. Abri a porta devagarzinho, olhei, vi ele correndo, mas não deu pra sair, fiquei com medo de tomar um tiro também", contou o aposentado, emocionado.

Relacionamento conturbado e histórico de violência

Segundo o pai de Dayse, o relacionamento com o policial rodoviário federal era marcado por episódios de violência há aproximadamente quatro anos. "Era uma relação conturbada, dois dias bons e quatro dias ruins. Eu já tinha presenciado brigas, já tirei ele de cima dela, uma vez flagrei ele tentando enforcar a Dayse", revelou Carlos Roberto. Apesar das agressões sofridas, Dayse nunca registrou denúncia formal contra o companheiro.

O crime teria sido motivado pela tentativa da comandante de encerrar o relacionamento. Após assassinar Dayse com cinco tiros na cabeça enquanto ela dormia, Diego Oliveira de Souza tirou a própria vida no local.

Legado de uma pioneira

Dayse Barbosa era a primeira mulher a comandar a Guarda Municipal de Vitória e deixava um legado significativo no combate à violência de gênero. Além de coordenar políticas públicas, ela publicava conteúdos sobre violência doméstica nas redes sociais e era porta-voz da prefeitura quando a capital atingiu a marca de 600 dias sem feminicídios.

Em entrevista concedida em 27 de janeiro de 2026, ela explicava o trabalho de conscientização: "A Guarda Municipal faz esse trabalho nas praças, escolas, EJAs (Educação de Jovens e Adultos), para que a mulher possa se ver na situação, se identificar como uma vítima passando pela violência e pedir ajuda". Agora, sua própria história se tornou um triste exemplo da violência que tanto combatia.

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Investigações em andamento

O caso está sendo investigado pela Delegacia Especializada de Homicídio e Proteção à Mulher (DHPM) de Vitória. A Polícia Científica esteve no local para realizar perícia e colher evidências. A Polícia Rodoviária Federal emitiu nota manifestando pesar pelo falecimento da comandante e afirmando que está à disposição para colaborar com as investigações.

A morte de Dayse Barbosa interrompeu não apenas uma vida dedicada à proteção de outras mulheres, mas também um período histórico de segurança na capital capixaba, levantando questões profundas sobre a violência doméstica mesmo entre aqueles que deveriam combatê-la.