Camisa 'Regret Nothing' de réu por estupro coletivo expõe cultura misógina no Pedro II
Camisa 'Regret Nothing' de réu por estupro expõe misoginia no Pedro II

Camisa com frase 'Regret Nothing' usada por réu de estupro coletivo revela cultura misógina em tradicional colégio carioca

A imagem de um aluno do Colégio Pedro II usando uma camiseta com a frase em inglês "Regret Nothing" (Não se arrependa de nada) ao se entregar à polícia, acusado de participar de um estupro coletivo contra uma adolescente de 17 anos em Copacabana, tornou-se símbolo de uma cultura misógina que pais, alunos e professores denunciam na instituição.

Cobrança por protocolo de combate ao assédio

A comunidade escolar tem pressionado a direção do Colégio Pedro II (CPII) para implementar urgentemente o Plano Setorial de Prevenção e Enfrentamento do Assédio e da Discriminação, documento que existe desde o ano passado mas nunca saiu do papel. Os grêmios estudantis convocaram um ato para esta terça-feira (10) exigindo a efetivação das medidas.

A discussão ganhou urgência após o caso do estupro coletivo que envolve dois estudantes do CPII, um dos colégios mais tradicionais do Rio de Janeiro. Vitor Hugo Simonin, de 18 anos, foi fotografado com a polêmica camiseta ao se apresentar às autoridades.

Plano aprovado três vezes, mas não implementado

O plano foi aprovado em 2025 pelo Conselho Superior (Consup) – órgão máximo do colégio, formado por representantes eleitos de professores, servidores, pais, alunos e ex-alunos – e recebeu nova aprovação após a revelação do caso de estupro. Em carta divulgada na última quarta-feira (4), membros do conselho registraram a terceira aprovação do documento e afirmaram compromisso com sua implementação "com seriedade".

No entanto, até o momento, o plano continua sem execução. A reitoria emitiu nota reconhecendo que "é dever de toda instituição democrática constituir mecanismos sólidos de combate direto ao assédio", mas alegou que a Advocacia Geral da União (AGU) identificou problemas jurídicos em parte da proposta.

Objeções jurídicas da AGU

Em parecer enviado ao colégio em dezembro de 2025, a AGU argumentou que o grupo de trabalho responsável pela elaboração do plano "extrapolou os limites de sua atribuição". Segundo o órgão, foram apresentadas "inovações que impedem sua conformação como plano setorial integrante do Programa Federal de Prevenção e Enfrentamento ao Assédio e à Discriminação".

Proposta para "melhorar o que já existia"

O g1 conversou com duas integrantes do grupo de trabalho que desenvolveu o plano. A professora Priscila Bastos, do campus São Cristóvão 1, explicou que a iniciativa partiu do Sindicato dos Trabalhadores no Ensino do Colégio Pedro II (Sindscope), após servidoras procurarem acolhimento em casos de assédio.

"A ideia é melhorar o que já existe", afirmou Priscila, destacando que o colégio já tem ações de prevenção, mas carece de sistematização. O plano estabelece definições claras sobre o que constitui assédio sexual, moral ou discriminação – algo que antes "não tinha um parâmetro".

Criação da Comissão Permanente (Compa)

A principal proposta do plano é instituir a Comissão Permanente para a Prevenção e Enfrentamento aos Assédios Moral e Sexual, Importunação Sexual, Discriminações, Racismo e Injúria Racial (Compa). A comissão seria composta por três coordenadores eleitos pela comunidade escolar, que indicariam o restante da equipe.

Anna Luiza Moura, servidora técnica do campus São Cristóvão 2 e integrante do grupo de trabalho, explicou que a ideia é permitir que vítimas denunciem "a uma comissão completamente independente do campus onde estudam". Priscila Bastos complementou: "É muito difícil as vítimas denunciarem. Oito em cada dez não denunciam porque tem preocupações com as redes de relações".

Prevenção institucionalizada

Em uma instituição com 14 campi espalhados pelo Rio, as ações preventivas atualmente ocorrem de forma descentralizada. Priscila defende a institucionalização dessas práticas: "São muitas ações dentro do colégio, mas não têm necessariamente um diálogo entre si. Isso precisa ser institucionalizado porque não pode depender de gestão ou da vontade individual do servidor".

O plano propõe que a Compa seja responsável por organizar um protocolo unificado de prevenção, acolhimento, apuração, responsabilização e monitoramento – ampliando a estrutura prevista no plano federal nacional, que inclui apenas prevenção, acolhimento e tratamento de denúncias.