Pesquisa nacional revela alta incidência de assédio contra mulheres no Brasil
Um levantamento abrangente realizado em dez capitais brasileiras traz dados alarmantes sobre a violência de gênero no país. Segundo a Pesquisa Viver nas Cidades: Mulheres 2026, sete em cada dez mulheres (71%) afirmam já ter sofrido assédio em algum momento de suas vidas. O estudo foi conduzido pelo Instituto Cidades Sustentáveis em parceria com o Ipsos-Ipec, contando com o apoio do Sesc-SP e da Fundação Grupo Volkswagen.
Metodologia e abrangência do estudo
A pesquisa foi realizada de forma online entre os dias 2 e 27 de dezembro, entrevistando 3.500 pessoas com mais de 16 anos residentes em Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, garantindo representatividade estatística aos resultados.
Locais de maior ocorrência de assédio
Os dados revelam padrões preocupantes sobre onde ocorrem essas violências:
- 56% das mulheres relataram que o assédio aconteceu na rua ou em outros espaços públicos como praças, parques ou praias
- 51% sofreram assédio no transporte público
- 38% foram vítimas no ambiente de trabalho
- 28% enfrentaram situações de assédio dentro do ambiente familiar
- 33% relataram episódios em bares e casas noturnas
- 17% mencionaram assédio dentro de transportes particulares como táxis ou carros por aplicativo
Subnotificação e diferenças geracionais
Jennifer Caroline Luiz, supervisora da área de gestão da Fundação Volkswagen, alerta que os números reais podem ser ainda mais elevados. "Existe a dor, a vergonha em admitir ter sido vítima dessa situação. Então, pode ser que o número seja maior, mas o formato da pesquisa, com entrevistas online, pode diminuir esse risco", explica ela.
O estudo identificou que o grupo etário com maior incidência de relatos de assédio foi o de mulheres entre 45 e 59 anos. Jennifer analisa: "Se por um lado, mulheres mais jovens, da faixa de 16 a 24 anos, podem ter mais facilidade em reconhecer as situações de assédio e denunciá-las, por outro, as mulheres com mais idade vivem em um contexto em que o machismo é mais presente e foi mais naturalizado. Por isso, podem ter sofrido mais com esse tipo de situação".
Medidas para combater a violência
A pesquisa também investigou quais medidas os entrevistados consideram mais eficazes para combater a violência doméstica e familiar:
- 59% das mulheres citaram o aumento das penas para quem comete violência contra mulher como medida prioritária
- 52% defenderam a ampliação dos serviços de proteção a mulheres em situação de violência em todas as regiões da cidade
Entre os homens entrevistados, essas também foram as duas medidas mais citadas, com 48% e 45% de menções, respectivamente, demonstrando certo consenso sobre as ações necessárias.
Desigualdade na percepção das tarefas domésticas
O levantamento revelou diferenças significativas na percepção sobre igualdade de gênero no âmbito doméstico:
- 51% dos homens afirmam que os afazeres domésticos são divididos igualmente em suas casas
- Apenas 29% das mulheres concordam com essa divisão igualitária
- 28% dos homens reconhecem que as mulheres fazem a maior parte das tarefas domésticas
- 43% das mulheres afirmam realizar a maior parte do trabalho doméstico
Jennifer Caroline Luiz comenta essa disparidade: "A sobrecarga feminina é mais percebida pelas próprias mulheres. Há uma tendência de alguns homens aumentarem a percepção de que o trabalho doméstico é uma responsabilidade compartilhada, mas eles acham que está sendo dividido igualmente, enquanto elas não percebem o mesmo. Isso traduz a desigualdade de gênero".
Os resultados desta pesquisa destacam a urgência de políticas públicas mais efetivas para combater o assédio e promover a igualdade de gênero no Brasil, revelando tanto a extensão do problema quanto as diferentes percepções entre homens e mulheres sobre questões fundamentais da convivência social.
