Mulheres buscam empoderamento e segurança através de artes marciais como jiu-jítsu e krav magá
Mulheres aumentam presença em jiu-jítsu e krav magá por segurança

Mulheres transformam medo em força através de artes marciais

Nos últimos anos, um movimento silencioso mas poderoso vem ganhando espaço nos tatames brasileiros. Mulheres de todas as idades e profissões estão descobrindo nas artes marciais não apenas uma atividade física, mas uma ferramenta de empoderamento e segurança em um cenário de crescente violência.

Da vulnerabilidade à autoconfiança

A história da diretora comercial paulistana Claide Assman, de 45 anos, ilustra essa transformação. Após sofrer episódios de violência que incluíram ameaças verbais e uma tentativa de assalto enquanto passeava com seus filhos pequenos, Claide se viu dominada pela insegurança. "Saí correndo, impotente e com medo, e depois me senti humilhada e desrespeitada", relata a executiva sobre um dos incidentes.

A descoberta do jiu-jítsu mudou sua perspectiva. Ao se matricular em um curso voltado especificamente para mulheres, encontrou não apenas técnicas de defesa, mas também uma nova postura diante da vida. A identificação foi tão profunda que acabou levando toda sua família para as aulas, transformando uma experiência individual em um projeto coletivo.

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Crescimento expressivo do interesse feminino

Claide está longe de ser uma exceção. Dados da Maximum Boxing, empresa especializada em equipamentos esportivos, revelam que o interesse feminino por modalidades de defesa pessoal como jiu-jítsu e krav magá aumentou 23% no último ano. A pesquisa analisou buscas na internet por essas modalidades e identificou uma tendência clara de crescimento.

Outro levantamento da mesma empresa, realizado com 500 brasileiros, mostrou que seis em cada dez mulheres planejam começar ou continuar a praticar lutas em 2026. As motivações principais incluem:

  • Aquisição de habilidades de defesa pessoal
  • Redução do estresse e ansiedade
  • Ganho de condicionamento físico
  • Desenvolvimento da autoconfiança

Referências que inspiram mudanças

A pentacampeã mundial de jiu-jítsu Kyra Gracie tem sido uma das vozes mais ativas nesse movimento. Além de treinar atletas para competições, ela dedica parte de seu trabalho a ensinar mulheres e crianças a se defenderem de diferentes tipos de violência. "É um trabalho voltado para a sobrevivência", afirma Kyra, que atua no Rio de Janeiro e vê quase metade de sua clientela composta por mulheres.

Kyra relaciona diretamente o aumento da procura pelos cursos ao recorde histórico de feminicídios registrado no ano passado. Junto com seu marido, o ator Malvino Salvador, ela percorre o Brasil com seminários de defesa pessoal onde simulam situações reais de agressão. Recentemente, viralizou nas redes sociais um vídeo em que ensina uma de suas filhas a aplicar um golpe básico, com a mensagem clara de que as crianças também precisam aprender a dizer "não".

Metodologias adaptadas à realidade brasileira

Em São Paulo, academias têm desenvolvido técnicas específicas para o público feminino. Uma delas, batizada de "women empowered" (mulheres empoderadas), orienta as alunas a se defenderem em vinte cenários baseados em situações reais de agressão, identificadas a partir de estatísticas policiais.

O método foi inspirado no trabalho do lutador Joaquim Valente, marido de Gisele Bündchen, que adaptou técnicas do judô para criar um sistema de alavancas que permite até pessoas de físico franzino enfrentarem oponentes maiores. Formado em criminologia, Valente desenvolveu aulas focadas em defesa pessoal que já atraíram personalidades internacionais como Ivanka Trump.

Krav magá ganha espaço nas grandes cidades

O sistema israelense de defesa pessoal krav magá, criado para situações reais de combate, também tem registrado aumento significativo no público feminino. No Centro Krav Magá de Moema, na capital paulista, o número de alunas cresceu 20% no último ano.

"As pessoas entenderam que precisam estar preparadas, pois a violência pode acontecer em qualquer lugar", afirma João Arthur, proprietário da academia. O objetivo do treinamento é ensinar reações rápidas e eficientes diante de ameaças, sempre com foco na segurança e na prevenção.

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Uma mudança cultural em andamento

Mais do que uma simples tendência fitness, o aumento da presença feminina nas artes marciais representa uma mudança cultural significativa. Mulheres estão desafiando estereótipos de fragilidade e buscando ativamente ferramentas para garantir sua segurança e autonomia.

Como resume Kyra Gracie: "Somos educadas a ser delicadas. Precisamos de outras ferramentas". Essas ferramentas agora estão sendo forjadas nos tatames, transformando medo em confiança e vulnerabilidade em força.

Diante de uma ameaça, a atitude mais segura continua sendo evitar confrontos sempre que possível. Mas quando a situação exige, as mulheres brasileiras estão mostrando que agora também sabem ir à luta – e voltar vitoriosas.