Violência contra a mulher: 80 medidas protetivas foram descumpridas no Tocantins em apenas dois meses
A violência doméstica continua deixando vítimas no Tocantins, mesmo quando há amparo legal. Um levantamento recente da Secretaria de Segurança Pública do estado (SSP-TO) revela que 80 medidas protetivas foram descumpridas em 2026 até o dia 16 de fevereiro, sendo 26 apenas na capital Palmas.
Caso emblemático em Palmas envolve policial militar
Um caso recente que ilustra essa triste realidade é o de Ingrid Gabriele Santos, que denunciou ter sido agredida pelo ex-companheiro, o policial militar Edimar Silva Araújo. A vítima, que possui medida protetiva desde 2024, relatou ter sofrido socos na cabeça e na costela durante a agressão mais recente, ocorrida na noite de 14 de fevereiro.
"É terrível, é você estar sempre assombrada. Você não vive bem dentro da sua casa. Eu mesma estou aterrorizada porque ele sabe a minha rota, sabe onde eu moro. É viver como se fosse um monstro vindo atrás de ti o tempo todo", desabafou Ingrid em entrevista.
Detalhes da agressão e contexto familiar
Segundo o relato da vítima, a agressão aconteceu quando ela foi até a casa onde o policial estava para cobrar uma dívida de R$ 1,5 mil. O valor seria utilizado para comprar medicamentos para sua filha, que está internada. "Tem as marcas aqui no meu rosto, ele me agrediu, puxou meu cabelo, me deu muitos socos na minha cabeça, bastante soco na minha cabeça e na minha costela, que eu estou toda doída", descreveu Ingrid.
O boletim de ocorrência registra que o policial saiu da casa de forma agressiva, puxando os cabelos da vítima, dando um tapa em seu rosto e arremessando-a contra a parede. O celular de Ingrid também foi danificado durante o episódio violento.
Perfil do acusado e andamento do caso
Edmar Silva de Araújo é segundo-tenente da Polícia Militar do Tocantins, concursado desde 2005 e atua como músico na ajudância-geral da corporação. O advogado do PM afirmou que ainda não teve acesso integral aos autos para se manifestar detalhadamente, mas reforçou o compromisso com o devido processo legal e o enfrentamento à violência doméstica.
O caso está sendo investigado pela 1ª Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Palmas. A Polícia Militar informou, em nota oficial, que não compactua com condutas que violem a lei e que abrirá um procedimento administrativo para apurar o caso.
Importância das medidas protetivas e alerta especializado
A advogada Jheccey Camelo, especialista no assunto, reforça que embora existam casos de descumprimento, a medida protetiva é um instrumento jurídico que salva vidas, pois permite a expedição imediata de mandados de prisão.
"Infelizmente, várias vítimas, quando chegam para nós, dizem: 'Doutora, mas esse papel vai me adiantar do quê? Esse papel não vai salvar minha vida'. Mas ele salva. Então, eu diria para essas mulheres: denunciar, não temer, não ficar calada. Vamos denunciar esses agressores porque eles têm que ser presos", alertou a especialista.
No momento da agressão, Ingrid possuía uma medida protetiva de urgência contra o oficial, expedida em 2025. Os dados da SSP-TO mostram que o descumprimento dessas medidas é um problema grave no estado, exigindo ações mais efetivas de proteção às vítimas e punição aos agressores.