Uma das vítimas do professor de jiu-jítsu Melqui Galvão, investigado por suspeita de crimes sexuais contra alunas, relatou em entrevista exclusiva à GloboNews 14 anos de violência sexual e psicológica que afirma ter sofrido. A atleta Brenda Larissa, de 27 anos, atualmente residente nos Estados Unidos, declarou que ouviu do treinador que os abusos eram uma forma de agradecimento pela ajuda que ele lhe proporcionou quando ela iniciava no esporte e ao ingressar na equipe de competição.
Detalhes dos abusos
“Ele pagava a inscrição de campeonato, dava quimono. A gente não tinha dinheiro para nada, muitas vezes nem para comer. (...) Quando ele foi me abusar, ele falou que eu tinha que pagar, né, todo o tempo que ele estava investindo em mim e que aquilo não era de graça e eu teria que pagar”, relatou Brenda.
Melqui Galvão foi preso temporariamente no fim de abril no estado do Amazonas após a denúncia da primeira vítima. Ele foi transferido para São Paulo na noite de quinta-feira (7) e encaminhado ao Presídio da Polícia Civil, na Zona Norte da capital. Além de treinador, ele também é servidor da Polícia Civil do Amazonas.
Investigação em andamento
O caso é investigado pela 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). A GloboNews mapeou pelo menos sete vítimas que afirmam ter sido abusadas. A Polícia Civil informou que até o momento três vítimas foram ouvidas formalmente, assim como testemunhas.
Os relatos coletados pela GloboNews mencionam abusos sexuais e psicológicos cometidos por Melqui Galvão quando as atletas ainda eram adolescentes. A maioria decidiu prestar queixa ou falar publicamente sobre o assunto somente após a prisão de Galvão, por medo de represálias ou impunidade do treinador.
“Antes, antes eu não entendia, né? Ele fazia a gente entender que aquilo era normal. Muitas das vezes ele confessava, ele falava para a gente, falava para algum dos menininhos. Hoje eu entendo, ele estava fazendo aquilo com crianças, com as meninas, entendeu? Tamanha a crueldade que hoje eu entendo, e isso me indigna. Quero que a Justiça seja feita”, afirmou Brenda.
A lutadora revelou ainda que sua irmã mais nova também foi vítima de Melqui Galvão e que só soube do abuso após a prisão dele. Até então, nenhuma delas havia compartilhado as agressões com outras pessoas.
Defesa nega acusações
A defesa do treinador informou que os advogados estiveram com Melqui Galvão nesta sexta-feira (8) no Presídio da Polícia Civil e que, por enquanto, só têm ciência formal de uma vítima. Ele nega as acusações.
Outro caso: mestre condenado por estupro
Outro caso que veio a público após a prisão de Melqui Galvão é o do mestre de jiu-jítsu André Luís Siqueira Pinheiro, conhecido como “André Motoca”. Ele está foragido há um ano e dois meses, após ser condenado pelo Tribunal de Justiça de São Paulo por abusos sexuais cometidos contra uma aluna, entre agosto de 2015 e julho de 2016, na cidade de São Paulo.
A vítima tinha 15 anos quando os crimes começaram a ser praticados. Foram relatados quatro episódios de abusos cometidos pelo treinador. A pena fixada pelo TJ-SP é de 15 anos pelo crime de estupro, em regime inicialmente fechado. Em juízo, ele negou as acusações.
Os abusos teriam ocorrido na casa de uma familiar da vítima e em contextos de treinamento para o esporte. A jovem relatou que nunca manifestou interesse em se relacionar com o agressor. De acordo com o processo, o mestre de jiu-jítsu pediu para a vítima não contar sobre os estupros.
Após três anos de tramitação na Justiça de São Paulo, o caso foi encerrado (com trânsito em julgado). A ordem de prisão foi expedida em 11 de março de 2025, mas até o momento o condenado é considerado foragido. A defesa do treinador afirmou que os autos se encontram em grau de recurso nos Tribunais Superiores e tramitam em segredo de Justiça. Por isso, não se manifestou sobre o assunto.
Quem é Melqui Galvão
Melqui Galvão é conhecido no meio esportivo como faixa preta e treinador de jiu-jítsu, sendo responsável por uma academia na Zona Norte de Manaus. Ele também atuava como instrutor de defesa pessoal na Polícia Civil do Amazonas. Segundo a PC-AM, o servidor é efetivo da instituição e estava lotado no setor de capacitação, onde ministrava treinamentos de defesa pessoal. Diante da gravidade das denúncias, ele foi afastado cautelarmente das funções até a conclusão das investigações.



