Santa Catarina registrou 92 mortes provocadas por policiais militares em 2025, o maior número desde 2019. O dado representa um aumento de 24,3% em relação a 2024, quando foram contabilizados 74 óbitos. O crescimento também acontece no primeiro ano completo sem o uso de câmeras corporais pelos agentes.
Fim do uso de câmeras corporais
O encerramento do monitoramento foi anunciado em setembro de 2024 pela corporação pioneira no país ao implementar a tecnologia, há seis anos. Ao finalizar o programa, a PM justificou defasagem, falta de manutenção adequada e insuficiência para armazenar as imagens.
Justificativa da PM
Em relação ao aumento da letalidade, a Polícia Militar catarinense justificou que o crescimento superior a 300% nas ações ampliou a exposição ao risco em ocorrências. Afirmou ainda que os confrontos decorrem da resistência de suspeitos às ordens legais e que os policiais atuam dentro dos protocolos.
Média de mortes
Em 2025, as 92 mortes corresponderam a uma média aproximada de 0,25 morte por dia, ou seja, uma pessoa morta a cada quatro dias em confrontos com a PM ao longo do último ano.
Posição do Ministério Público
O Ministério Público (MP) é contrário ao fim do uso do equipamento e pede o retorno do monitoramento. Em uma ação protocolada pela Defensoria Pública do Estado e que segue na Justiça, o órgão defende que as câmeras garantem transparência na atuação policial, controle do uso da força e qualificação das provas.
Opinião de especialistas
Coordenador do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, Leonardo Silva, afirmou que a retirada dos equipamentos é um retrocesso, já que as imagens trazem segurança para os próprios policiais. Para o especialista, o índice de mortes por parte da PM diminuirá quando o Estado entender que o controle da letalidade é prioridade. "Com inteligência, investigação e tecnologia, você reduz ocorrências de confronto. Esses confrontos não impactam a dinâmica criminal e colocam policiais, vítimas e a população em risco, já que muitas vezes ocorrem em via pública. Essas situações precisam ser evitadas e só devem ocorrer em casos de extrema necessidade", disse.
Já para a antropóloga e especialista em Segurança Pública, Flávia Medeiros, para reduzir a letalidade, são necessárias mudanças estruturais de longo prazo. Entre elas estão a responsabilização cível e criminal do Estado e dos policiais envolvidos. "Enquanto a segurança pública for entendida como uma racionalidade armamentista, militarizada e de confronto, os números de mortes decorrentes de intervenções policiais irão aumentar", afirmou.
Comparação com média nacional
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em 2025 com dados de 2024, mostra Santa Catarina abaixo da média nacional em mortes por intervenção policial. No estado, 11,5% das Mortes Violentas Intencionais em 2024 foram causadas por ação policial. No país, o índice foi de 14,1%. Os dados de 2025 não foram divulgados.
Em relação ao total de mortes violentas, o estado teve a segunda menor taxa do país em 2024, atrás apenas de São Paulo: Foram 8,5 registros para cada 100 mil habitantes, enquanto a média nacional foi de 20,8. Em números absolutos, foram 685 MVIs no estado. O indicador reúne homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes por intervenção policial.
Perfil dos mortos pela PM
O perfil predominante das mortes decorrentes de intervenção policial com a polícia em Santa Catarina, segundo os dados da SPP, é de homens jovens, principalmente entre 21 e 30 anos, mortos à noite ou na madrugada, em municípios urbanos, com frequência associados a ocorrências envolvendo tráfico de drogas ou crimes patrimoniais.
Entre 2019 e 2022, apenas uma mulher morreu em confronto com a polícia, frente a 266 pessoas do gênero masculino. Já entre 2023 e abril de 2026, foram registradas mortes de três mulheres e 277 homens. Isso significa que mais de 98% das mortes envolvem pessoas do sexo masculino.
Quanto à raça ou cor, pessoas brancas são maioria entre as vítimas em Santa Catarina, segundo dados da PM, o que dialoga com a composição demográfica do Estado. Conforme o IBGE, 76,28% dos habitantes do estado se declarou branco no Censo de 2022.



