PF: deputado Thiago Rangel dava ordens na Educação e negociava cargos para traficante
PF: deputado Rangel dava ordens na Educação e negociava cargos

A Polícia Federal (PF) revelou novos detalhes da Operação Unha e Carne, que resultou na prisão do deputado estadual Thiago Rangel (Avante). Segundo a investigação, um diretor de escola estadual do Noroeste Fluminense denunciou ter sofrido pressão para liberar R$ 200 mil da conta do colégio para a campanha eleitoral de Thamires Rangel, filha do parlamentar. O relato consta de um dossiê anexado a uma notícia de fato recebida pelo canal Comunique PF e incorporado ao inquérito.

Pressão para transferência ilegal

De acordo com o depoimento, o diretor recebeu uma chamada de vídeo próxima à eleição de outubro de 2024 da então diretora administrativa da Regional Noroeste da Secretaria Estadual de Educação (Seeduc), Júcia Gomes de Souza Figueiredo, e do empresário Vinícius de Almeida Rodrigues, dono da VAR Construtora. Eles pediram que o diretor transferisse R$ 200 mil da conta escolar para ajudar na campanha de Thamires. A proposta incluía a emissão de nota fiscal falsa e a devolução do dinheiro em 15 dias.

“Houve muita pressão que eu fizesse a transferência, mas me neguei a fazer. Tenho provas dessa ligação, mas afirmo que não gostaria de comprometer meu nome por medo do que podem fazer comigo e minha família”, diz o documento. O diretor também relatou que, posteriormente, recebeu uma chamada de vídeo do assessor Luiz Fernando Passos de Souza, na qual o deputado Thiago Rangel apareceu e afirmou que ele poderia antecipar pagamentos de obras “sem problemas” e que enviaria “mais emendas para outras etapas da obra”.

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Indícios de corrupção e caixa 2

O dossiê foi reproduzido integralmente no relatório da PF que embasou a operação. Segundo os investigadores, a narrativa do diretor “converge perfeitamente” com os fatos já apurados sobre desvios em contratos de obras de escolas estaduais. O esquema envolveria direcionamento de empresas, pressão sobre diretores para pagamentos antecipados e repasse de parte dos recursos a integrantes de organização criminosa. A PF afirma que o relato apresenta “fortíssimos indícios” de corrupção, direcionamento de obras e uso de recursos desviados para caixa 2 eleitoral.

O relatório também aponta que os fatos coincidem com elementos de outro inquérito, a Operação Postos de Midas, que investiga suspeitas de caixa 2 em 2024. As empresas VML Construção e Serviços e VAR Construtora, além do assessor Luiz Fernando Passos, já eram investigadas. A PF destaca que diretores de escolas eram pressionados a antecipar pagamentos antes da execução dos serviços, com orientação de um coordenador da Seeduc para dividir os pagamentos em parcelas de 30%, 40% e 30%.

Áudios e vídeos comprometedores

Na segunda-feira (18), o g1 mostrou que áudios encontrados pela PF indicam que Thiago Rangel dava ordens dentro da estrutura da Seeduc e negociava cargos públicos para pessoas ligadas ao traficante Arídio Machado da Silva Júnior, o “Júnior do Beco”. Em um dos áudios, Rangel diz à diretora regional Júcia Gomes: “Tudo que acontecer dentro da regional eu quero saber. Eu não tenho que dar satisfação a ninguém. O deputado sou eu. A indicação é minha e quem manda sou eu.”

Na terça-feira (19), o g1 revelou que um vídeo no celular de Thiago Rangel mostra uma mala com R$ 500 mil em dinheiro vivo. Segundo a PF, o valor faria parte de um suposto acordo de caixa 2 de R$ 2,9 milhões para financiar campanhas de aliados políticos em Campos dos Goytacazes, incluindo a de Thamires Rangel. A investigação também reúne mensagens atribuídas a Luiz Fernando Passos tratando da campanha da filha do deputado. “A campanha da sua filha chegando, chegando grande no resultado final”, diz um dos áudios.

Defesa e desdobramentos

A defesa de Thiago Rangel afirmou anteriormente que o deputado é inocente, que as mensagens foram retiradas de contexto e que ele “não faz parte de organização criminosa”. A defesa também declarou que o parlamentar “nunca teve operador financeiro ou recebeu repasse ilícito”. O g1 procurou as defesas de Júcia Gomes, Deleon Lucas de Souza Carneiro, Luiz Fernando Passos e as empresas citadas, mas não obteve resposta até a última atualização.

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Thiago Rangel está preso preventivamente por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, e seu gabinete na Alerj foi dissolvido. A operação continua em andamento.