A influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra foi presa na quinta-feira (21) durante uma operação conjunta do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil. A ação, batizada de Operação Vérnix, investiga um esquema de lavagem de dinheiro vinculado ao Primeiro Comando da Capital (PCC). A investigação, que já dura sete anos, também tem como alvo Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, apontado como líder da facção, além de parentes dele e operadores financeiros do grupo.
Como começou a investigação
A apuração teve início em 2019, quando agentes penitenciários encontraram bilhetes manuscritos escondidos em celas e na caixa de esgoto da Penitenciária II de Presidente Venceslau, no interior paulista. Os documentos continham ordens internas do PCC, contatos de integrantes e referências a ações violentas contra servidores públicos. A partir desses manuscritos, foram abertos três inquéritos que permitiram mapear a estrutura financeira da organização criminosa.
Os investigadores afirmam que a análise dos bilhetes levou a uma transportadora de cargas com sede em Presidente Venceslau, próxima ao complexo penitenciário, que seria usada como empresa de fachada para movimentar dinheiro da facção.
O esquema de lavagem
Segundo o MP e a Polícia Civil, a transportadora fazia repasses para contas de terceiros para ocultar a origem do dinheiro do PCC. Duas dessas contas estariam em nome de Deolane. A investigação aponta que parte das movimentações ocorria por meio de depósitos fracionados em espécie, saindo do caixa da facção e passando pela transportadora antes de chegar às contas ligadas à influenciadora.
Os investigadores descrevem um esquema complexo de movimentações entre contas de pessoas físicas e jurídicas, numa etapa conhecida como “dissimulação”, usada para distanciar o dinheiro de sua origem criminosa. O delegado Edmar Caparroz afirmou que o PCC utilizava a projeção pública e o patrimônio de Deolane para dar aparência de legalidade aos recursos ilícitos. “O crime organizado deposita os valores nessa figura pública, esse dinheiro acaba se misturando com o dinheiro de outras atividades, e quando precisa esses recursos retornam para o crime organizado”, declarou.
Ligação com Marcola
A polícia aponta que o principal elo entre Deolane e Marcola é Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha do chefe do PCC, que reside em Madri, na Espanha. Deolane também manteria vínculos pessoais e comerciais com um dos gestores fantasmas da transportadora. Os investigadores não identificaram prestação de serviços compatível com os valores recebidos pela influenciadora.
Além de Marcola e Paloma, também foram alvos da operação: Everton de Souza, conhecido como “Player”, operador financeiro da facção; Alejandro Camacho, irmão de Marcola; e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, sobrinho do líder do PCC.
Prisão preventiva
A Justiça decretou a prisão preventiva de Deolane devido ao risco de fuga. Ela havia retornado ao Brasil na véspera da operação após passar semanas na Europa. Os investigadores destacaram que familiares de Marcola deixaram o país durante as investigações — uma sobrinha foi para a Espanha e um sobrinho fugiu para a Bolívia. O nome de Deolane foi incluído na Difusão Vermelha da Interpol.
Outras investigações
Esta é a segunda prisão de Deolane em menos de dois anos. Em 2025, ela já havia sido alvo de investigação da Polícia Civil de Pernambuco sobre lavagem de dinheiro relacionada a empresas de apostas online, com investimentos de mais de R$ 65 milhões em carros e imóveis de luxo.
Relatório policial
Em trecho do inquérito obtido pela TV Globo, a Polícia Civil classifica Deolane como integrante do PCC, com papel “central” na estrutura financeira da facção. O documento afirma: “Deolane Bezerra dos Santos é hoje uma das mais importantes pessoas integrantes do vasto e diferenciado esquema de lavagem e capitais gerido pela organização criminosa.” Contudo, a investigação ressalta que ela não foi “batizada” formalmente na facção e não possui apelido dentro do PCC.
Quem é Deolane Bezerra
Deolane ganhou projeção nacional após a morte do marido, o funkeiro MC Kevin, em 2021. Desde então, ampliou sua presença nas redes sociais, participou de programas de TV e investiu em publicidade digital e apostas online. Ela acumula mais de 21 milhões de seguidores no Instagram e ostenta carros de luxo, viagens e mansões em Alphaville. O filho adotivo, Giliard Vidal dos Santos, conhecido como “Chefinho”, também foi alvo de busca e apreensão na operação.



