Descarte de livros da biblioteca de Osasco é alvo de investigação do MP
Livros de Osasco descartados são investigados pelo MP

Milhares de livros da Biblioteca Municipal de Osasco, localizada na Grande São Paulo, foram descartados em caçambas de lixo, gerando forte indignação entre moradores e autoridades. O caso, denunciado pelo SP2 no último sábado (25), levou coletivos culturais e vereadores a protocolarem uma petição no Ministério Público nesta segunda-feira (27), solicitando investigação e esclarecimentos sobre o destino do acervo.

A prefeitura de Osasco justificou que o material estava contaminado por fungos e mofo, mas a alegação não convenceu a população. Além dos livros, documentos históricos também teriam sido descartados. O engenheiro Carlos Tagliari, frequentador do espaço, lamentou a situação: “Era um local de referência, e aquilo que fizeram não deveria ter sido feito. Aquilo matou a gente por dentro, porque tem livros que não serão substituídos, não existe similar nacional.”

A reportagem revelou que os exemplares foram retirados do acervo municipal e colocados em caçambas de entulho. Segundo moradores, o material foi levado para uma empresa de sucata. Nesta segunda-feira, o local estava fechado, mas um responsável, em contato telefônico, afirmou: “Nós só fizemos o translado, mas esses livros já foram devolvidos.” Questionado se a devolução ocorreu no mesmo dia, respondeu que sim.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

Moradores da região também criticaram o descarte. “Acho um desperdício, porque quem tem filho na escola precisa pesquisar. Eu vi o que alegaram, mas os livros estavam todos bons”, disse a auxiliar de limpeza Maria Célia de Jesus. O estudante Caio Luca Parrillo afirmou sentir falta do espaço: “Desde que vim para Osasco, a biblioteca é muito importante para estudantes e organizações de estudo. É uma pena, porque todo livro é conhecimento, e jogar fora é como jogar fora o conhecimento.”

Professores e moradores se mobilizam para reverter a situação. “Ainda não tivemos acesso a nenhum laudo ou justificativa plausível. Só uma justificativa genérica de que tinha fungo e mofo, mas nada material”, afirmou a professora Juliana Gomes Curvelo.

Após a repercussão, que ocorreu durante a Semana Mundial do Livro, vereadores e coletivos protocolaram a petição no Ministério Público. “Pedimos que a prefeitura seja investigada, na pessoa do prefeito Gérson Pessoa e do secretário de Cultura, por peculato e crimes contra o patrimônio público. Foram quase 40 mil livros jogados fora sem obedecer às regras de descontinuidade”, disse Heber Rocha Farias, líder do coletivo JuntOz. O grupo também solicita apuração de outros crimes, como dano ao patrimônio público, improbidade administrativa e violação ao patrimônio cultural e à legislação de descarte de documentos públicos.

A especialista em conservação e restauro Luiza Kumagai destacou que o descarte deve ser a última alternativa. “No Brasil, existem tratamentos adequados para isso, em grande escala. Não se descarta; faz-se uma triagem e análise técnica do estado de conservação, adotando tratamento de conservação, higienização ou descontaminação.”

A preocupação também atinge as crianças. “Fiquei muito preocupada com os livros, porque eles são a maior fonte de educação para as pessoas”, disse a estudante Beatriz Oliveira Ramos, de 8 anos.

A TV Globo solicitou entrevista com o prefeito Gérson Pessoa (Podemos), o secretário municipal de Cultura, Marcelo da Silva, e o secretário municipal de Educação, José Tostes Borges, mas nenhum atendeu. Em nota, a prefeitura afirmou que os livros foram acondicionados em caçambas e que o manuseio incorreto será investigado. A informação diverge da nota enviada no sábado, que dizia que os exemplares haviam sido descartados. A administração municipal acrescentou que uma empresa especializada será contratada para reavaliar os livros. A Câmara Municipal de Osasco informou que acompanha os relatos e, em sessão ordinária nesta segunda-feira, pediu esclarecimentos oficiais à prefeitura sobre os critérios adotados para o descarte.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar